მთავარი Vermelho, branco e sangue azul

Vermelho, branco e sangue azul

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წელი:
2019
გამომცემლობა:
Editora Seguinte
ენა:
portuguese
ISBN 13:
9788554515751
ფაილი:
EPUB, 1,11 MB
ჩატვირთვა (epub, 1,11 MB)

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4 comments
 
Fairy_Whitlock
MELHOR
LIVRO
E V E R

é incrível, maravilhoso, personagens envolventes, detalhes super bem escritos, história perfeita, deixa com gosto de "queria que tivesse acontecido na vida real"
21 March 2021 (04:15) 
Daniella
Simplesmente perfeito!!!
01 April 2021 (14:29) 
Blubas
Não vale nada de nada...
08 May 2021 (10:37) 
raphaella
não me julguem mas eu esperava mais do livro pelo hype todo
22 May 2021 (16:26) 

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1

Vermelho, branco e sangue azul

Year:
2019
Language:
portuguese
File:
AZW3 , 1.30 MB
5.0 / 0
2

Fire In Her Eyes

Year:
2019
Language:
english
File:
EPUB, 596 KB
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para os estranhos e os sonhadores





Sumário


Um

Dois

Três

Quatro

Cinco

Seis

Sete

Oito

Nove

Dez

Onze

Doze

Treze

Catorze

Quinze

Agradecimentos

Sobre a autora

Créditos





Um


No terraço da Casa Branca, escondido em um canto da varanda, há um painel meio solto bem no canto do Solário. Se bater do jeito certo, dá para puxar o painel o suficiente para encontrar uma mensagem que foi entalhada com a ponta de uma chave, ou talvez com um abridor de cartas roubado da Ala Oeste.

Na história secreta das primeiras-famílias — uma indústria exclusiva de fofocas que devem permanecer eternamente em segredo, sob pena de morte —, não se sabe ao certo quem escreveu aquilo. A única certeza que as pessoas parecem ter é que só o filho ou a filha de um presidente teria a audácia de vandalizar a Casa Branca. Alguns juram que foi Jack Ford, que tinha discos do Hendrix e um quarto de dois andares anexo ao terraço para fumar de madrugada. Outros dizem que foi a jovem Luci Johnson, que prendia o cabelo com uma fita grossa. Não importa. A frase se mantém, um mantra secreto para quem for esperto o bastante para encontrá-la.

Alex a descobriu na semana em que se mudou para a Casa Branca. Ele nunca contou para ninguém.

Diz assim:





REGRA NO 1: NÃO SEJA PEGO


Os Quartos Leste e Oeste no segundo andar costumam ser reservados para a primeira-família. Foram projetados para ser um enorme salão de aparato para as visitas do marquês de La Fayette durante o governo Monroe, mas, depois de um tempo, foram divididos. Alex dorme no Leste, de frente para a Sala do Tratado, e June, no Oeste, perto do elevador.

Quando eram crianças, no Texas, eles tinham quartos na mesma configuração, um de cada lado do corredor. Na época, dava para saber com o que June andava sonhando só pelo que cobria as paredes do quarto dela. Aos doze, eram pinturas em aquarela. Aos quinze, calendários lunares e tabelas de cristais. Aos dezesseis, recortes do The Atlantic, uma bandeira da Universidade do Texas, Gloria Steinem, Zora Neale Hurston, e trec; hos de ensaios de Dolores Huerta.

Já o quarto de Alex era sempre o mesmo, só que cada vez mais cheio de troféus de lacrosse e pilhas de trabalhos de matérias avançadas. Está tudo juntando poeira na casa que eles ainda mantêm na cidade. Pendurada em uma corrente no pescoço, sempre escondida, ele guarda a chave daquela casa desde o dia em que se mudou para Washington.

Agora, do outro lado do corredor, o quarto de June é todo decorado em tons de branco, rosa-claro e verde mentolado. Ele foi fotografado pela Vogue e é famoso por ter velhos periódicos de design de interiores dos anos 60, que ela encontrou em alguma das salas de estar da Casa Branca, como inspiração. O de Alex pertencera à Caroline Kennedy quando bebê e depois se tornou o escritório de Nancy Reagan — motivo pelo qual June fez uma purificação energética no cômodo. Ele manteve as ilustrações de natureza em uma linha simétrica sobre o sofá, mas cobriu as paredes cor-de-rosa de Sasha Obama com azul-escuro.

Pelo menos nas últimas décadas, os filhos do presidente não costumam morar na Residência depois dos dezoito anos, mas Alex começou a faculdade em Georgetown no mesmo mês de janeiro em que sua mãe tomou posse e, pela logística, não fazia sentido dividir os seguranças nem os custos entre a Casa Branca e o apartamento em que ele iria morar. June veio no mesmo ano, recém-formada na Universidade do Texas. Ela nunca disse, mas Alex sabe que ela se mudou para ficar de olho nele. June sabe melhor do que ninguém que ele adora estar tão perto da ação e, mais de uma vez, chegou a arrancá-lo à força da Ala Oeste.

Dentro do quarto, ele pode sentar e escutar Hall & Oates na vitrola do canto, sem que ninguém o ouça cantarolando “Rich Girl”, como seu pai fazia. Pode usar os óculos que sempre finge não precisar para ler. Pode fazer todos os guias de estudo detalhados e cheios de post-its coloridos que quiser. Ele não vai se tornar o congressista mais jovem a ser eleito na história moderna se não fizer por merecer, mas ninguém precisa saber o quanto ele se esforça para isso. Senão seu status de sex symbol cairia por terra.

— Ei — diz uma voz à porta. Ele ergue o olhar do laptop e vê June entrando no quarto, carregando dois iPhones, uma pilha de revistas embaixo do braço e um prato na mão. Ela fecha a porta com o pé.

— O que você roubou hoje? — Alex pergunta, afastando a pilha de papéis para ela sentar na cama.

— Donuts sortidos — June diz enquanto sobe. Ela está usando uma saia lápis com sapatilhas cor-de-rosa de bico fino, e Alex já consegue imaginar as colunas de moda da semana seguinte: uma foto de June com aquela roupa estampando alguma propaganda para vender as sapatilhas perfeitas para a jovem prática e profissional.

Ele se pergunta o que a irmã fez o dia todo. June tinha comentado sobre uma coluna para o Washington Post, ou era uma sessão de fotos para o blog? Ou as duas coisas? Ele nunca conseguia acompanhar.

Ela esparramou a pilha de revistas em cima da colcha e começou a ler.

— Fazendo a sua parte para manter a indústria de fofocas norte-americana viva?

— É pra isso que serve meu diploma de jornalismo — June diz.

— O que tem de bom essa semana? — Alex pergunta, pegando um donut.

— Vejamos — June diz. — A In Touch diz que estou… namorando um modelo francês?

— Sério?

— Quem me dera. — Ela folheia algumas páginas. — Ah, falaram que você fez clareamento anal.

— É verdade — Alex diz com a boca cheia de chocolate com granulado.

— Imaginei — June diz, sem erguer os olhos. Depois de folhear quase a revista inteira, ela a enfia embaixo da pilha e passa para a People. Ela a folheia distraidamente; afinal, a People só escreve o que os assessores dela mandam. Não tem graça. — Não tem muita coisa sobre a gente essa semana… Ah, sou uma dica nas palavras-cruzadas.

Acompanhar a cobertura dos tabloides é um passatempo de June que às vezes diverte e às vezes irrita a mãe dos dois, e Alex é narcisista o bastante para deixar a irmã ler os destaques para ele. Geralmente são pura invenção ou frases prontas escritas pela assessoria de imprensa da família, mas às vezes ajudam a desviar os rumores estranhos e especialmente maldosos. Se pudesse escolher, Alex preferiria ler uma das centenas de fanfics apaixonadas que protagoniza na internet, em que sempre aparece com um charme devastador e uma resistência física inacreditável, mas June se recusa categoricamente a ler isso em voz alta, por mais que ele insista.

— Lê a Us Weekly — Alex diz.

— Hmm… — June a desenterra da pilha. — Ah, olha, estamos na capa.

Ela vira a capa brilhante para ele, que tem uma foto dos dois estampada no canto: June com o cabelo preso em um coque e Alex ligeiramente bêbado mas ainda bonito, com seu maxilar forte e cachos escuros. Embaixo, em letras amarelas em negrito, a manchete diz: NOITADA MALUCA DOS PRIMEIROS-FILHOS EM NOVA YORK.

— Ah, é, essa foi uma noitada maluca mesmo — Alex diz, recostando na cabeceira alta de couro e ajeitando os óculos. — Nada mais sexy do que ser os palestrantes principais de uma conferência sobre emissões de carbono e passar uma hora e meia comendo salgadinho de camarão e ouvindo discursos.

— Estão dizendo que você teve um casinho com uma “morena misteriosa” — June diz. — “Embora a primeira-filha tenha sido levada de limusine para uma festa repleta de celebridades logo depois do evento, Alex, o galã de vinte e um anos, foi flagrado entrando no W Hotel para se encontrar com uma morena misteriosa na suíte presidencial e só saiu por volta das quatro da madrugada. Fontes internas do hotel afirmam ter ouvido ruídos amorosos do quarto a noite inteira, e correm boatos de que a morena era ninguém menos do que… Nora Holleran, a neta de vinte e dois anos do vice-presidente Mike Holleran e terceira integrante do Trio da Casa Branca. Será que os dois estão revivendo seu romance?”

— Isso! — Alex comemora, e June resmunga. — Faz menos de um mês! Você me deve cinquenta dólares, bebê.

— Espera aí. Foi mesmo a Nora?

Alex lembra da semana anterior, quando apareceu na suíte de Nora com uma garrafa de champanhe. Eles tiveram um lance rápido um milhão de anos antes, durante a campanha, meio que para fazer acontecer de uma vez algo que parecia inevitável. Eles tinham dezessete e dezoito anos na época, e tinham certeza de que eram as pessoas mais inteligentes do mundo. Desde então, Alex admitiu que Nora era duas vezes mais inteligente do que ele, e definitivamente inteligente demais para namorá-lo algum dia.

Não havia nada que ele pudesse fazer se a imprensa não tinha superado aquele caso, só porque adoram a ideia dos dois juntos, como se fossem um casal Kennedy moderno. Por isso, se ele e Nora se encontram de vez em quando em quartos de hotel para beber, assistir a The West Wing e fazer barulhos de gemidos altos contra a parede para a alegria de tabloides enxeridos, a culpa não era dele. Eles estavam apenas transformando uma situação desagradável em diversão pessoal.

Tirar dinheiro de June também era uma das vantagens.

— Talvez — ele diz, arrastando as vogais.

June bate nele com a revista como se ele fosse uma barata especialmente nojenta.

— Você está roubando, babaca!

— Aposta é aposta. Combinamos que você me daria cinquenta dólares se aparecesse um boato novo em menos de um mês. Aceito PayPal.

— Eu não vou pagar — June diz, irritada. — Vou matar a Nora amanhã. O que você vai vestir, aliás?

— Onde?

— No casamento.

— Casamento de quem?

— Hm, o casamento real — June diz. — Da Inglaterra. Está literalmente em todas as capas que acabei de te mostrar.

Ela ergue a Us Weekly de novo e, dessa vez, Alex nota a principal manchete em letras garrafais: PRÍNCIPE PHILIP DIZ SIM! A fotografia mostra um herdeiro britânico extremamente sem graça e sua noiva loira igualmente desinteressante com sorrisos insossos.

Ele derruba o donut para fingir devastação.

— É esse fim de semana?

— Alex, nós vamos viajar de manhã — June diz para ele. — Temos duas aparições antes da cerimônia. Não acredito que a Zahra ainda não encheu seu saco por causa disso.

— Merda — ele resmunga. — Devo ter anotado em algum lugar. Acabei me distraindo.

— Se distraiu conspirando com a minha melhor amiga para ganhar cinquenta dólares de mim?

— Não, com meu trabalho para a faculdade, engraçadinha — Alex diz, apontando com ar dramático para suas pilhas de anotações. — Passei a semana inteira trabalhando nisso para Pensamento Político Romano. E pensei que tínhamos concordado que Nora é nossa melhor amiga.

— Isso nem parece uma matéria de verdade — June diz. — Será possível que você esqueceu de propósito o maior evento internacional do ano só porque não quer ver seu arqui-inimigo?

— June, eu sou filho da presidenta dos Estados Unidos. O príncipe Henry é um testa de ferro do Império Britânico. Não dá pra dizer que ele é meu arqui-inimigo — Alex diz. Ele volta para seu donut, mastigando pensativo, e acrescenta: — Arqui-inimigo implica que ele é realmente meu rival em algum nível, e não, sabe, o fruto esnobe de um incesto que deve bater punheta olhando as próprias selfies.

— Nossa.

— Só dizendo.

— Bom, você não precisa gostar dele, só precisa fazer uma carinha feliz e não causar um incidente internacional no casamento real.

— Juju, eu sempre faço uma carinha feliz — Alex diz. Ele abre um sorriso enorme terrivelmente falso, e June faz uma careta de repulsa.

— Eca. Enfim, já sabe o que vai vestir, né?

— Óbvio, escolhi e pedi para a Zahra aprovar no mês passado. Não sou uma anta.

— Ainda não decidi o meu vestido — June diz. Ela se aproxima e tira o laptop das mãos dele, ignorando seu resmungo. — Você prefere o marrom ou o de renda?

— Renda, óbvio. É a Inglaterra. E por que você está se esforçando tanto para me fazer reprovar nessa matéria? — ele diz, tentando pegar o laptop, antes de ela bater na sua mão. — Vai mexer no seu Instagram, sei lá. Você é um pé no saco.

— Cala a boca, estou tentando escolher alguma coisa pra assistir. Eca, você tem Hora de voltar na sua lista? Está estudando cinema em 2005?

— Eu te odeio.

— Hmm, eu sei.

Lá fora, o vento bate mais forte sobre o gramado, fazendo as tílias farfalharem no jardim. A vitrola no canto parou de tocar. Alex sai da cama e vira o disco, pondo a agulha no lugar, e o segundo lado começa a tocar “London, Luck & Love”.


No fundo, Alex nunca se cansou dos jatinhos particulares, nem mesmo depois de três anos do mandato da mãe.

Não é sempre que ele pode viajar assim, mas, quando pode, é difícil manter a cabeça no lugar. Ele nasceu no interior montanhoso do Texas; sua mãe, filha de mãe solteira, e seu pai, filho de imigrantes mexicanos, todos muito pobres — uma viagem de luxo ainda era um luxo.

Quinze anos antes, quando sua mãe concorreu à presidência pela primeira vez, o jornal de Austin a apelidou de Cometa de Lometa. Ela havia saído de sua cidadezinha na região de Fort Hood, trabalhado noites inteiras em lanchonetes para bancar a faculdade de direito e, antes dos trinta, estava defendendo casos de discriminação diante do Supremo Tribunal Federal. Ela era a última coisa que alguém esperaria sair do Texas em meio à Guerra do Iraque: uma democrata de cabelo loiro-avermelhado, respostas rápidas, salto alto, um sotaque forte e uma pequena família birracial.

Por isso, ainda é surreal que Alex esteja cruzando o Atlântico, beliscando pistaches em uma cadeira de couro de encosto alto com os pés para cima. Nora está debruçada sobre as palavras-cruzadas do New York Times à frente dele, os cachos castanhos caindo sobre a testa. Ao lado dela, o gigantesco agente Cassius do Serviço Secreto — apelidado de Cash — segura o próprio jornal na mão gigante, correndo para terminar as cruzadinhas primeiro. O arquivo do trabalho de Pensamento Político Romano de Alex pisca cheio de expectativa na tela do laptop, mas ele não consegue se concentrar enquanto atravessa o Atlântico.

Amy, a agente do Serviço Secreto preferida da sua mãe, uma ex-fuzileira naval que já matou muitos homens, segundo os boatos que correm por DC, está do outro lado do corredor. Ela está tranquilamente bordando flores em um guardanapo, ao lado de uma caixa de materiais de artesanato feita de titânio e à prova de balas. Alex já a viu perfurar o joelho de uma pessoa com uma agulha de bordado muito parecida com aquela.

June está ao lado dele, apoiada em um cotovelo com a cara enfiada na edição da People que, sabe-se lá por quê, trouxe com eles. Ela sempre escolhe os materiais de leitura mais bizarros para os voos. Na última vez, era um guia antigo de conversação em cantonês. Antes, A morte vem buscar o arcebispo.

— O que você está lendo aí agora? — Alex pergunta.

Ela vira a revista para ele ver a matéria de duas páginas intitulada: LOUCURA DO CASAMENTO REAL! Alex solta um grunhido. É definitivamente pior do que Willa Cather.

— Que foi? — ela diz. — Quero estar preparada para o meu primeiro casamento real.

— Você já foi pra uma festa de formatura — Alex diz. — É só imaginar isso, só que no inferno, mas você tem que ser muito gentil o tempo todo.

— Dá para acreditar que gastaram setenta e cinco mil dólares só no bolo?

— Que deprimente.

— E parece que o príncipe Henry vai sozinho para o casamento e todo mundo está pirando. Diz aqui que ele estava — ela faz um sotaque britânico cômico —, “segundo rumores, saindo com uma herdeira belga no mês passado, mas agora aqueles que acompanham a vida amorosa do príncipe estão sem saber o que pensar”.

Alex bufa. É inacreditável como milhares de pessoas acompanham a vida amorosa incrivelmente sem graça dos irmãos da realeza. Ele até entende que as pessoas liguem para onde ele enfia a língua — pelo menos, ele tem personalidade.

— Vai ver, a população feminina da Europa finalmente se deu conta que ele é tão atraente quanto um novelo de lã encharcado — Alex sugere.

Nora abaixa as palavras-cruzadas. Cassius olha para o lado e solta um palavrão ao ver que ela terminou primeiro.

— Você vai dançar com ele, então?

Alex revira os olhos e se imagina rodando pelo salão de baile enquanto Henry fala vários nadas sobre críquete e caça de raposa em seu ouvido. Pensar nisso lhe dá ânsia de vômito.

— Até parece.

— Ah — Nora diz —, você ficou vermelhinho.

— Escuta — Alex diz —, casamentos reais são um lixo, os príncipes que fazem casamentos reais são um lixo, o imperialismo que permite que príncipes existam é um lixo. É um lixo sem fim.

— Mas que belo discurso — June diz. — Você sabe que os Estados Unidos também são um império genocida, né?

— Sei, June, mas pelo menos temos a decência de não manter a monarquia viva — Alex diz, jogando um pistache nela.

Os novos funcionários da Casa Branca sempre são informados sobre algumas coisas a respeito de Alex e June antes de começarem a trabalhar. A alergia de June a amendoim. Os pedidos frequentes de café que Alex faz no meio da noite. O ex-namorado de June, que terminou com ela quando se mudou para a Califórnia depois da faculdade, mas ainda é a única pessoa cujas cartas chegam diretamente para ela. O velho ódio de Alex contra o príncipe caçula.

Não é nem ódio, na verdade. Nem uma rivalidade. É uma birra incômoda e inquietante. Faz as palmas das mãos dele suarem.

Os tabloides — o mundo — decidiram elencar Alex como o equivalente americano ao príncipe Henry desde o primeiro dia, visto que o Trio da Casa Branca é a coisa mais próxima que os Estados Unidos têm da realeza. Nunca pareceu justo. A imagem de Alex é puro carisma, inteligência e humor cínico, entrevistas reflexivas na capa da GQ aos dezoito anos; a de Henry é composta de sorrisos plácidos, cavalheirismo cortês e aparições genéricas de caridade, uma tela perfeitamente em branco de Príncipe Encantado. Na opinião de Alex, Henry tem um papel muito mais fácil de representar.

Tá. Talvez tecnicamente seja uma rivalidade.

— Tá, inteligentona — ele diz —, quais são os números aqui?

Nora sorri.

— Bom. — Ela finge pensar profundamente no assunto. — Avaliação de risco: se o primeiro-filho não se cuidar, vai resultar em mais de quinhentas mortes de civis. Noventa e oito por cento de chance de o príncipe Henry estar gato. Setenta e oito por cento de chance de Alex ser banido do Reino Unido para sempre.

— Melhor do que eu imaginava — June comenta.

Alex ri, e o avião segue caminho.

Londres é um verdadeiro espetáculo. Multidões lotam as ruas em frente ao Palácio de Buckingham e a cidade inteira tem corpos envoltos em bandeiras do Reino Unido, acenando bandeirinhas menores. Há lembranças comemorativas do casamento real por todo lado; o rosto do príncipe Philip e de sua noiva estampados em tudo, de barras de chocolate a roupas íntimas. Alex quase não consegue acreditar que tanta gente se anime dessa forma com algo completamente idiota. Ele tem certeza que não vai aparecer tanta gente quando ele ou June se casarem um dia, tampouco queria algo assim.

A cerimônia em si parece durar uma eternidade, mas até que é bonita. Não é que Alex não curta esse lance de amor ou não veja graça em casamentos. É que Martha é uma filha perfeitamente respeitável da nobreza, e Philip é um príncipe. É tão sexy quanto uma transação comercial. Nada de paixão, nada de drama. Alex prefere as histórias de amor shakespearianas.

Parece que leva anos até ele estar sentado em uma mesa entre June e Nora dentro do salão de baile do Palácio de Buckingham, já se sentindo um pouco irresponsável de tão irritado. Nora passa uma taça de champanhe para ele, que ele aceita com gratidão.

— Algum de vocês sabe o que é um visconde? — June diz, entre uma mordida e outra de um sanduíche de pepino. — Eu conheci, tipo, uns cinco desses, e fico sorrindo como se soubesse o que significa quando eles falam isso. Alex, você fez aquela matéria de coisas relacionais governamentais internacionais comparativas. Sei lá. O que eles são?

— Acho que é um vampiro que cria um exército de sílfides sexuais ensandecidas e inaugura seu próprio governo — ele responde.

— Faz sentido — Nora diz. Ela está dobrando o guardanapo em um formato complexo sobre a mesa, as unhas pretas cintilando sob a luz do candelabro.

— Queria ser visconde — June diz. — Podia mandar minhas sílfides sexuais cuidarem dos meus e-mails.

— Sílfides sexuais trabalham bem com correspondência profissional? — Alex pergunta.

O guardanapo de Nora começou a ficar parecido com um pássaro.

— Acho que pode ser uma abordagem interessante. Os e-mails seriam completamente trágicos e devassos. — Ela faz uma voz rouca e esbaforida. — “Ah, por favor, eu imploro, me leve… me leve para discutir amostras de tecidos no almoço, seu animal!”

— Pode ser estranhamente eficaz — Alex observa.

— Vocês são perturbados — June diz baixinho.

Alex abre a boca para responder quando um assistente da realeza se materializa diante da mesa feito um fantasma corpulento com a cara azeda e uma peruca tosca.

— Srta. Claremont-Diaz — diz o homem, que tem uma cara de quem se chama Reginald, Bartholomew ou algo nessa linha. Ele faz uma reverência e, por milagre, sua peruca não cai no prato de June. Alex troca um olhar incrédulo com ela enquanto ele não está olhando. — Sua alteza real, o príncipe Henry, gostaria de saber se a senhorita lhe daria a honra de uma dança.

June fica boquiaberta, emitindo um som vocálico baixo, e Nora abre um sorriso sarcástico.

— Ah, ela adoraria — Nora diz. — Passou a noite torcendo por esse pedido.

— Eu… — June começa a dizer e para, sorrindo mesmo enquanto lança um olhar cortante para Nora. — É claro. Seria um prazer.

— Excelente — Reginald-Barthlomew diz, se vira e aponta por trás do ombro.

Lá está Henry, em carne e osso, com a beleza clássica de sempre: o terno sob medida, o cabelo claro bagunçado, as maçãs do rosto salientes e a boca delicada e simpática. Ele tem uma postura impecável inata, como se um dia tivesse saído completamente formado e adulto de algum belo jardim de buquês.

Ele encara Alex e algo parecido com irritação ou adrenalina enche seu peito. Deve fazer um ano que ele não conversa com Henry. O rosto dele ainda é insuportavelmente simétrico.

Henry o cumprimenta com a cabeça, como se ele fosse apenas mais um convidado qualquer, não a pessoa que ele venceu ao sair primeiro na Vogue quando eram adolescentes. Alex pestaneja, se enche de fúria e observa Henry virar seu maldito queixo esculpido na direção de June.

— Olá, June — Henry diz, e estende a mão educadamente para ela, que está corada. Nora finge desfalecer. — Você sabe dançar valsa?

— Eu… tenho certeza que consigo acompanhar — ela diz, e pega a mão dele com cautela, como se ele estivesse pregando uma peça, o que Alex pensa ser muito generoso com o senso de humor de Henry. O príncipe a leva em direção ao grupo de nobres girando.

— O que foi isso? — Alex diz, olhando fixamente para o pássaro de guardanapo de Nora. — Ele decidiu me fazer ficar quieto de uma vez por todas seduzindo a minha irmã?

— Ah, amiguinho — Nora diz. Ela estende o braço e dá um tapinha na mão dele. — É fofo você achar que tudo gira em torno de você.

— Pois deveria.

— Esse é o espírito.

Ele ergue os olhos para a multidão onde Henry está girando June pelo salão. Ela está com um sorriso neutro e educado no rosto, enquanto ele fica olhando pelo ombro dela, o que é ainda mais irritante. June é incrível. O mínimo que Henry pode fazer é prestar atenção nela.

— Mas você acha que ele realmente gosta dela?

Nora encolhe os ombros.

— Vai saber? A família real é esquisita. Pode ser uma cortesia ou… Ah, ali está.

Um fotógrafo real apareceu para tirar uma foto deles dançando, que Alex sabe que vai ser vendida para a People da próxima semana. É isso? O plano é usar a primeira-filha para chamar atenção com um boato idiota de relacionamento? Deus livre Henry de Philip dominar o noticiário por uma semana.

— Ele até que é bom nisso — Nora comenta.

Alex chama um garçom e decide passar o resto da festa ficando sistematicamente bêbado.

Alex nunca contou — nem nunca vai contar — para ninguém, mas viu Henry pela primeira vez quando tinha doze anos. Ele só pensa nisso quando está bêbado.

Ele tem certeza que viu o rosto dele no noticiário antes, mas essa foi a primeira vez em que ele o viu de verdade. June tinha acabado de fazer quinze anos e gastou parte do dinheiro que ganhou com a edição de uma revista adolescente de cores ofuscantes. O amor dela por tabloides cafonas começou cedo. No centro da revista havia minipôsteres que dava para tirar e colar dentro do armário. Se você tomasse cuidado e erguesse os grampos com a unha, era possível tirá-los sem rasgar. Um deles, bem no meio, era a foto de um menino.

Ele tinha o cabelo cheio e dourado, grandes olhos azuis, um sorriso doce, e um bastão de críquete apoiado no ombro. Devia ser uma foto espontânea, porque não tinha como aquela confiança alegre e ensolarada ser posada. No canto inferior da página, em letras azuis e rosa: PRÍNCIPE HENRY.

Alex ainda não sabia dizer o que exatamente o fazia voltar, mas ele entrava escondido no quarto de June, encontrava a página e passava a ponta dos dedos no cabelo do garoto, como se pudesse sentir sua textura. Quanto mais seus pais subiam na carreira política, mais ele começava a se conformar com o fato de que o mundo logo saberia quem ele era. Nessa época ele às vezes pensava no retrato e tentava canalizar um pouco da confiança tranquila do príncipe Henry.

(Ele também tinha considerado erguer os grampos com os dedos para tirar a foto e guardá-la no quarto dele, mas nunca chegou a fazer isso. Suas unhas eram curtas demais; os grampos eram feitos para unhas grandes como as de June.)

Mas então chegou o dia em que ele conheceu Henry — ou chegaram as primeiras palavras frias e distantes que Henry disse a ele — e Alex constatou que tinha entendido tudo errado, que o menino lindo e sincero da foto não era de verdade. O verdadeiro Henry era bonito, distante, sem graça e fechado. Essa pessoa a quem os tabloides o comparavam sem parar, com quem ele mesmo se comparava, se achava melhor do que Alex e do que todos os outros. Alex não conseguia acreditar que algum dia quis ser como ele.

Alex continua bebendo e alternando entre pensar nisso e se forçar a não pensar nisso, desaparecendo na multidão e dançando com herdeiras europeias para esquecer.

Ele está rodopiando com alguém quando avista uma figura solitária perto do bolo e da fonte de champanhe. É o príncipe Henry de novo, com uma taça na mão, observando o príncipe Philip e sua noiva rodando no salão de baile. Ele tem aquela cara cortês odiosa de desinteresse, como se tivesse mais o que fazer da vida do que estar parado ali. Alex não resiste ao impulso de provocá-lo.

Ele abre caminho pela multidão, pega uma taça de vinho de uma bandeja no caminho e toma metade de uma vez só.

— Quando for seu casamento — Alex diz, chegando ao lado dele —, é melhor contratar duas fontes de champanhe em vez de uma só. Dá vergonha ir a um casamento com só uma dessas.

— Alex — Henry diz com aquele sotaque insuportavelmente esnobe. De perto, o colete dele sob o paletó é de um tom dourado exuberante e deve ter um milhão de botões. É horrível. — Estava me perguntando se teria esse prazer.

— Parece que é seu dia de sorte — Alex diz, sorrindo.

— Realmente é uma ocasião histórica — Henry concorda. Até o sorriso branco dele é radiante e imaculado, pronto para ser impresso em dinheiro.

O mais irritante de tudo é que Alex sabe que Henry também o odeia — ele deve odiar, os dois são antagonistas mútuos naturais — mas se recusa a ser sincero em relação a isso. No fundo, Alex sabe que política envolve ser simpático com pessoas que você odeia, mas ele queria que uma vez, uma que fosse, Henry agisse como um ser humano de verdade em vez de um brinquedinho de corda reluzente vendido em uma loja de presentes do palácio.

Ele é perfeito demais. Alex tem vontade de provocar.

— Você nunca se cansa — Alex diz — de fingir que é melhor que isso tudo?

Henry se vira e o encara.

— Não sei se entendi o que você quer dizer.

— Tipo, você fica lá, fazendo os fotógrafos te seguirem, passeando como se odiasse toda essa atenção, o que visivelmente não é verdade já que chamou bem a minha irmã para dançar — Alex diz. — Você age como se fosse importante demais para estar em qualquer lugar, sempre. Não cansa?

— Eu sou… um pouco mais complicado que isso — Henry arrisca.

— Ah, tá bom.

— Ah — Henry diz, estreitando os olhos. — Você está bêbado.

— Só uma sugestão — Alex diz, pousando o cotovelo com intimidade excessiva no ombro de Henry, o que não é tão fácil quanto ele gostaria porque Henry é uns dez centímetros irritantes mais alto que ele. — Você podia fingir que está se divertindo. De vez em quando.

Henry ri com pesar.

— Acho que talvez seja melhor você tomar uma água, Alex.

— É mesmo? — Alex pergunta. Ele deixa de lado o pensamento de que talvez tenha sido o vinho que lhe deu coragem para puxar papo com Henry e finge o olhar mais recatado e angelical que consegue. — Estou te ofendendo? Desculpa se não sou tão obcecado por você quanto todo mundo. Sei que deve ser confuso.

— Quer saber? — Henry diz. — Eu acho que você é, sim.

Alex fica boquiaberto, enquanto a boca de Henry esboça um sorriso quase maldoso.

— Só uma ideia — Henry diz, com o tom polido. — Você já notou que nunca abordei você e fui exaustivamente educado todas as vezes em que nos falamos? Mas aqui está você, me procurando de novo. — Ele dá um gole do champanhe. — Só um comentário.

— Quê? Eu não… — Alex balbucia. — É você que…

— Tenha uma ótima noite, Alex — Henry diz, tenso, e se vira para ir embora.

Alex fica furioso por Henry achar que pode dar um fim à conversa e, sem pensar, estende a mão e o puxa pelo ombro.

Henry se vira, de supetão, e quase empurra Alex dessa vez. Por um breve momento, Alex fica impressionado com o brilho nos olhos dele, a explosão abrupta de uma personalidade verdadeira.

Antes que se dê conta, ele tropeça no próprio pé e cai para trás, esbarrando na mesa mais próxima. Tarde demais, ele percebe, horrorizado, que essa é a mesa que abriga o enorme bolo de casamento de oito andares, e segura o braço de Henry para se endireitar, mas tudo que consegue é desequilibrar os dois e fazê-los cair juntos em cima do suporte do bolo.

Ele observa, como se em câmera lenta, o bolo se inclinar, balançar, estremecer e, finalmente, tombar. Não há absolutamente nada que ele possa fazer para impedir. O bolo cai no chão em uma avalanche de glacê branco, uma espécie de pesadelo açucarado de setenta e cinco mil dólares.

Um silêncio ensurdecedor toma conta do salão quando o impulso o leva ao chão junto com Henry, caindo bem nos destroços do bolo no carpete decorado, a mão de Alex ainda segurando a manga de Henry. A taça de champanhe de Henry entornou sobre os dois e se quebrou e, pelo canto do olho, Alex pôde ver que um corte na maçã do rosto de Henry começara a sangrar.

Por um segundo, tudo em que ele consegue pensar enquanto olha para o teto, coberto de glacê e champanhe, é que, pelo menos, a dança de Henry com June não vai ser a maior notícia a sair sobre o casamento real.

Seu segundo pensamento é que sua mãe vai matá-lo a sangue-frio.

Ao seu lado, ele escuta Henry murmurar devagar:

— Puta que pariu.

Ele nota vagamente que essa é a primeira vez que ouve o príncipe dizer um palavrão, antes de o flash de uma câmera disparar.





Dois


Com um estalo sonoro, Zahra joga uma pilha de revistas na mesa da sala de reuniões da Ala Oeste.

— Essas são só as que eu encontrei no caminho pra cá hoje de manhã — ela diz. — Acho que nem preciso dizer que moro a dois quarteirões daqui.

Alex encara as manchetes diante dele.

O TOMBO DE $ 75.000

BATALHA REAL: Príncipe Henry e primeiro-filho

dos EUA saem no soco no casamento real

REBOLIÇO:

Alex Claremont-Diaz desencadeia Segunda Guerra Anglo-Americana

Cada uma é acompanhada por uma foto dele estatelado com Henry em uma pilha de bolo, o terno ridículo de Henry todo amassado e coberto por flores de glacê despedaçadas, seu punho apertado na mão de Alex, com um risquinho fino de sangue na bochecha.

— Tem certeza que não deveríamos estar na Sala de Crise pra essa reunião? — Alex brinca.

Nem Zahra nem sua mãe, sentadas do outro lado da mesa, parecem achar graça. A presidenta lança um olhar furioso através dos óculos de leitura, e ele fica quieto.

Alex não pode dizer que tem exatamente medo de Zahra, vice-chefe de gabinete e braço direito da sua mãe. Ela tem uma fachada espinhosa, mas ele jura que há alguma suavidade ali em algum lugar. Ele tem mais medo do que sua mãe é capaz de fazer. Eles cresceram falando muito sobre sentimentos, mas então sua mãe virou presidenta, e a prioridade da vida deles mudou de sentimentos para relações internacionais. Ele não sabe ao certo qual opção representa um destino pior.

— “Fontes internas do casamento real relatam que os dois foram vistos discutindo minutos antes da… bolástrofe” — Ellen lê seu exemplar do The Sun com a voz cheia de desprezo. Alex nem tenta adivinhar como ela conseguiu colocar as mãos na edição do dia de um tabloide britânico. A presidenta mãe age de maneiras misteriosas. — “Mas fontes exclusivas da família real afirmam que a rixa do primeiro-filho com Henry já dura anos. Uma fonte afirmou ao The Sun que Henry e o primeiro-filho se desentendem desde seu primeiro encontro na Olimpíada do Rio, e a animosidade só cresceu com o tempo; agora, nenhum deles consegue ficar no mesmo ambiente. Parece que era apenas uma questão de tempo até Alex fazer uso da abordagem americana: a violência.”

— Acho que não dá para chamar tropeçar em uma mesa de “violência”…

— Alexander — Ellen diz, assustadoramente calma. — Cala a boca.

Ele cala.

— “É impossível não se perguntar” — Ellen continua — “se o estranhamento entre os dois filhos poderosos não contribuiu para o que muitos consideram uma relação fria e distante entre a presidenta Ellen Claremont e a monarquia nos últimos anos.”

Ela joga a revista de lado, cruzando os braços sobre a mesa.

— Por favor, me conta outra piada — Ellen diz. — Quero tanto que você me explique por que isso é engraçado.

Alex abre e fecha a boca algumas vezes.

— Foi ele quem começou — ele diz finalmente. — Mal encostei nele… foi ele quem me empurrou, eu só segurei nele para tentar me equilibrar e…

— Meu bem, não sei como te dizer que a imprensa não dá a mínima para quem começou o quê — Ellen diz. — Como sua mãe, até entendo que pode não ser culpa sua, mas, como presidenta, tudo que quero é mandar a CIA fingir sua morte e usar a compaixão do povo para me reeleger.

Alex cerra os dentes. Ele está acostumado a fazer coisas que irritam a equipe da sua mãe — quando era mais novo, tinha o hábito de confrontar os colegas da mãe a respeito das discrepâncias nos votos deles em eventos amistosos de arrecadação de fundos em Washington —, e já esteve nos tabloides por coisas mais vergonhosas. Mas nunca em um aspecto tão cataclísmico e internacionalmente terrível quanto esse.

— Não tenho tempo para lidar com isto agora, então vamos fazer o seguinte — Ellen diz, tirando uma pasta de seu fichário. Está repleto de documentos de aparência oficial pontuados por post-its de cores diferentes, e o primeiro diz: TERMOS DO ACORDO.

— Hm — Alex diz.

— Você — ela diz — vai fazer as pazes com Henry. Vai viajar no sábado e passar o domingo na Inglaterra.

Alex pestaneja.

— A opção de fingir minha morte ainda está de pé?

— Zahra pode explicar o resto — Ellen continua, ignorando-o. — Tenho umas quinhentas reuniões agora. — Ela levanta e vai em direção à porta, parando para beijá-lo e passar a mão na cabeça dele. — Você é um tonto. Te amo.

Ela vai embora, batendo os saltos pelo corredor, e Zahra senta na cadeira vaga com uma expressão de quem prefere providenciar a morte dele de verdade. Tecnicamente, ela não é a pessoa mais poderosa ou importante na Casa Branca, mas trabalha ao lado de Ellen desde que Alex tinha cinco anos e Zahra tinha acabado de sair da Universidade Howard. Ela é a única em quem confiam para lidar com a primeira-família.

— Certo, o negócio é o seguinte — ela diz. — Passei a noite toda acordada em uma conferência com um bando de encarregados reais metidos a besta, canalhas das relações públicas e a porra do cavalariço do príncipe para fazer isto dar certo, então você vai seguir este plano à risca e não vai fazer nenhuma merda, entendeu?

Secretamente, Alex ainda acha essa história toda completamente ridícula, mas concorda com a cabeça. Zahra não parece nem um pouco convencida, mas continua:

— Primeiro, a Casa Branca e a monarquia vão emitir uma declaração conjunta dizendo que o que aconteceu no casamento real não passou de um acidente e um mal-entendido…

— Que é o que foi.

— … e que, apesar de quase nunca terem tempo de se ver, você e o príncipe Henry são amigos íntimos há alguns anos.

— Nós o quê?

— Olha — Zahra diz, tomando um gole de café de sua garrafa térmica gigante de aço inoxidável. — Os dois lados precisam sair bem dessa história, e o único jeito de isso acontecer é fazer parecer que sua briguinha no casamento foi algum tipo de acidente homoerótico entre velhos amigos, tá? Então, você pode odiar o herdeiro do trono o quanto quiser, escrever poemas maldosos sobre ele no seu diário, mas, no segundo em que vir uma câmera, vai agir como se o sol nascesse da pica dele, e vai ser convincente.

— Você conhece o Henry? — Alex diz. — Como vou fazer isso? Ele tem a personalidade de um repolho.

— Você realmente ainda não entendeu que não dou a mínima para como você se sente? — Zahra diz. — Isso está acontecendo para que sua idiotice não distraia o país inteiro da campanha de reeleição da sua mãe. Você quer que ela suba no palco do debate no ano que vem e explique para o mundo por que o filho dela está tentando desestabilizar as relações dos Estados Unidos com a Europa?

Bom, não, ele não quer. No fundo, ele sabe que é um estrategista melhor do que tem sido nessa história e, se não fosse por essa rixa idiota, provavelmente teria pensado nesse plano sozinho.

— Então, Henry é o seu melhor amigo — Zahra continua. — Você vai sorrir e acenar, sem encher o saco de ninguém enquanto vocês passam o fim de semana fazendo aparições de caridade e falando para a imprensa o quanto adoram a companhia um do outro. Se perguntarem sobre ele, quero que se declare como se ele fosse a porra do seu namoradinho da escola.

Ela passa para ele uma página de listas com tópicos e tabelas com dados organizados de maneira tão elaborada que ele mesmo poderia ter feito. O título diz FICHA INFORMATIVA DE SUA ALTEZA REAL, PRÍNCIPE HENRY.

— Você vai decorar isso para que saiba o que responder se alguém tentar te pegar em uma mentira — ela diz. Embaixo de hobbies, está escrito polo e corrida de iate. Alex prefere atear fogo no próprio corpo.

— Ele vai receber uma dessas sobre mim? — Alex pergunta, resignado.

— Vai. E quero que saiba que fazer a sua ficha foi um dos momentos mais deprimentes da minha carreira. — Ela passa outra página para ele, detalhando as exigências para o fim de semana.

[blockquote]Mínimo de dois (2) posts em redes sociais por dia destacando a Inglaterra/ visita ao país.

Uma (1) entrevista ao vivo à ITV This Morning, com duração de cinco (5) minutos, segundo roteiro predeterminado.

Duas (2) aparições conjuntas com fotógrafos presentes: um (1) encontro particular, uma (1) apresentação pública de caridade. [blockquote]

— Por que tenho de ir até lá? Foi ele que me empurrou naquele bolo ridículo. A gente não deveria mandar ele vir para cá e aparecer no Saturday Night Live ou coisa do tipo?

— Porque foi o casamento real que você arruinou, e foram eles que perderam setenta e cinco contos — Zahra diz. — Além disso, estamos providenciando a presença dele em um jantar oficial daqui a alguns meses. Ele está tão animado quanto você em relação a isso.

Alex aperta a ponta do nariz, onde uma dor de cabeça de estresse já está se formando.

— Eu tenho aula.

— Você vai estar de volta no domingo à noite, horário de Washington — Zahra responde. — Não vai perder nada.

— Então realmente não tenho como sair dessa?

— Não.

Alex pressiona os lábios. Ele precisa de uma lista.

Quando era criança, ele escondia páginas e páginas de papéis soltos cobertos por sua letra confusa e ilegível sob a almofada velha de brim do banco da janela na casa de Austin. Tratados divagantes sobre o papel do governo nos Estados Unidos com todos os Gs escritos ao contrário, parágrafos traduzidos do inglês para o espanhol, tabelas dos pontos fortes e fracos de seus colegas do ensino fundamental. E listas. Muitas listas. Listas ajudam.

Então: Motivos por que essa é uma boa ideia.

Um. Sua mãe precisa de uma boa imagem na imprensa.

Dois. Ter um histórico podre de relações internacionais não vai ajudar em nada na carreira dele.

Três. Viagem de graça para a Europa.

— Tá — ele diz, pegando o arquivo. — Eu aceito. Mas não vou me divertir.

— Espero que não.


O Trio da Casa Branca é o apelido oficial de Alex, June e Nora, cunhado pela People pouco antes da posse. Na verdade, o termo foi cuidadosamente testado com grupos focais pela assessoria de imprensa da Casa Branca e passado diretamente para a People. Política — calculismo até nas hashtags.

Antes dos Claremont, os Kennedy e os Clinton protegiam a primeira-prole da imprensa, dando-lhes privacidade para passar por fases difíceis, experiências orgânicas da infância e tudo mais. Sasha e Malia Obama foram perseguidas e comidas vivas pela imprensa antes mesmo de saírem do ensino médio. O Trio da Casa Branca quis ficar à frente da narrativa antes que qualquer um pudesse controlá-la.

Era um plano novo e ousado: três jovens bonitos, inteligentes, carismáticos e vendáveis da geração dos millennials — tecnicamente, Alex e Nora nasceram um pouco depois do início da Geração Z, mas a imprensa acha que esse termo não pegaria. Pegar vende, descolado vende. Obama era descolado. A primeira-família inteira também podia ser; um tipo próprio de celebridade. Não é o ideal, sua mãe sempre diz, mas funciona.

Eles são o Trio da Casa Branca, mas aqui, na sala de música do terceiro andar da Residência, são apenas Alex, June e Nora, naturalmente grudados uns nos outros desde que eram adolescentes se enchendo de café expresso até prejudicar a saúde na época de provas. Alex os impulsiona. June os equilibra. Nora os faz serem honestos.

Eles se acomodam em seus lugares de sempre: June, acocorada sobre os saltos diante da coleção de discos, procurando algum da Patsy Cline; Nora, de pernas cruzadas no chão, abrindo uma garrafa de vinho tinto; Alex, sentado de cabeça para baixo com os pés em cima do encosto do sofá, tentando descobrir o que fazer.

Ele vira a FICHA INFORMATIVA DE SUA ALTEZA REAL, PRÍNCIPE HENRY e estreita os olhos. Consegue sentir o sangue correndo para a cabeça.

June e Nora o ignoram, fechadas em uma bolha de intimidade que ele nunca consegue penetrar direito. A relação delas é enorme e incompreensível para a maioria das pessoas, até para Alex às vezes. Ele conhece todos os mínimos detalhes e vícios das duas, mas existe ali um laço feminino estranho que ele não consegue e sabe que não tem como traduzir.

— Pensei que você estava curtindo o trabalho do Washington Post — Nora diz. Com um estalo baixo, ela tira a rolha do vinho e toma um gole direto da garrafa.

— Eu estava — June diz. — Quer dizer, estou. Mas não é bem um trabalho. É só um editorial por mês, e metade das minhas pautas é derrubada por ser próxima demais da plataforma da minha mãe e, mesmo assim, a assessoria de imprensa precisa ler tudo que for político antes de eu entregar. Então, tipo, fico mandando esses artigos inofensivos, sabendo que do outro lado da tela as pessoas estão fazendo o jornalismo mais importante da carreira delas, e tenho que me contentar com isso.

— Então… você não está curtindo?

June suspira. Ela encontra o disco que estava procurando e o tira da capa.

— Não sei o que mais eu poderia fazer, esse é o lance.

— Eles não te colocariam em um furo? — Nora pergunta.

— Até parece. Eles não me deixariam nem entrar no prédio — June diz. Ela põe o disco na vitrola e posiciona a agulha no lugar. — O que Reilly e Rebecca diriam?

Nora ergue a cabeça e ri.

— Meus pais diriam para fazer o que eles fizeram: largar o jornalismo, se envolver com óleos essenciais, comprar uma cabana no meio do mato em Vermont, e ter uns seiscentos coletes com cheiro de patchuli.

— Você esqueceu a parte de investir na Apple nos anos noventa e ficar estupidamente ricos — June a lembra.

— Detalhes.

June chega perto e coloca a palma da mão em cima da cabeça de Nora, no fundo dos cachos da amiga, e se abaixa para dar um beijo nos próprios dedos.

— Vou pensar em alguma coisa.

Nora passa a garrafa, e June dá um gole. Alex solta um suspiro dramático.

— Não acredito que tenho que aprender essa porcaria — Alex diz. — Minha semana de provas mal acabou.

— Olha, é você quem quer brigar com tudo quanto é ser vivo — June diz, limpando a boca com o dorso da mão, um gesto que só faria na frente dos dois. — Incluindo a monarquia britânica. Então não sinto tanta pena de você. Enfim, ele foi supersimpático quando a gente dançou. Não entendo essa sua raiva.

— Acho incrível — Nora diz. — Inimigos mortais obrigados a fazer as pazes para resolver tensões entre seus países? Tem um quê shakespeariano nessa história.

— Se é shakespeariano, tomara que eu morra esfaqueado — Alex diz. — Essa ficha diz que a comida preferida dele é tortinha de frutas. Não consigo pensar em nenhuma comida mais sem graça. Ele é, tipo, uma pessoa feita de papelão.

A ficha é cheia de coisas que Alex já sabia, seja porque os irmãos reais dominam os noticiários ou por ter lido a página de Henry na Wikipédia com ódio no coração. Ele sabe sobre os pais de Henry, seus irmãos mais velhos Philip e Beatrice, que ele estudou literatura inglesa em Oxford e toca piano clássico. O resto é tão insignificante que ele não imagina que possa aparecer em uma entrevista, mas, de qualquer maneira, não vai correr o risco de estar menos preparado do que Henry.

— Uma ideia — Nora diz. — Vamos transformar isso em um jogo de bebida.

— Aah, boa — June concorda. — Beber toda vez que o Alex acertar?

— Beber toda vez em que a resposta der vontade de vomitar? — Alex sugere.

— Uma dose para cada resposta certa, duas para um fato sobre o príncipe Henry que seja mesmo horrível, objetivamente falando — Nora diz. June já tirou duas taças do armário, e as passa para Nora, que as enche e fica com a garrafa. Alex desliza do sofá para sentar no chão ao lado dela. — Certo — ela continua, pegando a ficha das mãos de Alex. — Vamos começar com uma fácil. Pais. Vai.

Alex pega sua taça, já puxando uma imagem mental dos pais de Henry, os olhos azuis sagazes de Catherine e o maxilar de astro de cinema de Arthur.

— Mãe: princesa Catherine, filha mais velha da rainha Mary, primeira princesa a obter um doutorado, em literatura inglesa — ele dispara. — Pai: Arthur Fox, famoso ator do teatro e do cinema inglês, mais conhecido pelo período em que interpretou James Bond nos anos oitenta, falecido em 2015. Bebam.

Eles bebem e Nora passa a lista para June.

— Certo — June diz, analisando a lista, parecendo procurar por algo mais difícil. — Vamos ver. Nome do cachorro?

— David — Alex diz. — É um beagle. Dessa eu lembro porque quem faz isso? Quem chama o cachorro de David? Parece nome de um procurador fiscal. Um procurador fiscal canino. Bebam.

— Nome, idade e profissão do melhor amigo? — Nora pergunta. — Melhor amigo fora você, claro.

Alex mostra o dedo do meio para ela com frieza.

— Percy Okonjo. Atende por Pez ou Pezza. Herdeiro da Okonjo Industries, uma empresa nigeriana líder em avanços biomédicos na África. Vinte e dois anos, mora em Londres, conheceu Henry no colégio Eton. Gerencia a Fundação Okonjo, uma ONG humanitária. Bebam.

— Livro preferido?

— Hm — Alex diz. — Ai. Merda. Hm. Qual é aquele…

— Sinto muito, sr. Claremont-Diaz, resposta incorreta — June diz. — Obrigada por participar, mas você perdeu.

— Vai, fala aí a resposta.

June espia a lista.

— Aqui diz… Grandes esperanças?

Alex e Nora grunhem ao mesmo tempo.

— Entenderam o que quero dizer agora? — Alex diz. — Esse cara lê Charles Dickens… por prazer.

— Nessa eu vou ter que concordar com você — Nora diz. — Duas doses!

— Olha, eu acho… — June diz enquanto Nora bebe. — Gente, até que é legal! Tipo, é pretensioso, mas os temas de Grandes esperanças são todos, tipo, o amor é mais importante do que o status, e fazer o que é certo vale mais do que dinheiro e poder. Talvez ele se identifique… — Alex faz um barulho alto e longo de peido. — Vocês são babacas pra cacete! Ele parece muito legal!

— Você só fala isso porque é nerd — Alex diz. — Quer proteger sua espécie. É um instinto natural.

— Estou te ajudando por pura bondade — June diz. — Eu tenho prazos agora.

— Ei, o que vocês acham que Zahra colocou na minha ficha?

— Hmm — Nora diz, sugando os dentes. — Esporte olímpico preferido: ginástica rítmica…

— Não tenho vergonha disso.

— Marca preferida de calça cáqui: Gap.

— Olha, elas vestem bem na minha bunda. As da J. Crew enrugam de um jeito esquisito. E não são cáquis. São chinos. Cáqui é coisa de gente branca.

— Alergias: poeira, sabão da marca Tide e ficar quieto.

— Idade da primeira obstrução política: nove, no SeaWorld San Antonio, tentando forçar um tratador de orcas a se aposentar mais cedo por, abre aspas, “práticas baleeiras desumanas”.

— Sempre defendi e sempre vou defender as orcas.

June joga a cabeça para trás e solta uma gargalhada alta e natural, Nora revira os olhos, e Alex fica contente por pelo menos ter isso esperando por ele quando esse pesadelo acabar.


Alex imagina que o representante do príncipe seja um tipo inglês de livros infantis com paletó de cauda e cartola, talvez um bigode de morsa, correndo para colocar um banquinho de veludo à porta da carruagem de Henry.

A pessoa que está esperando por ele e sua equipe de segurança na pista é muito diferente. É um indiano de trinta e poucos anos com um terno impecavelmente ajustado, bonito e charmoso com a barba bem aparada, uma xícara de chá fumegante, e uma bandeira britânica na lapela. Então tá.

— Agente Chen — o homem diz, estendendo a mão livre para Amy. — Espero que o voo tenha sido tranquilo.

Amy faz que sim.

— O mais tranquilo que o terceiro voo transatlântico em uma semana pode ser.

O homem entreabre um sorriso solidário.

— A Land Rover é sua e da sua equipe durante a viagem.

Amy faz que sim de novo, soltando a mão dele, e o homem volta sua atenção para Alex.

— Sr. Claremont-Diaz — ele diz. — Bem-vindo de volta à Inglaterra. Shaan Srivastava, cavalariço do príncipe Henry.

Alex aperta a mão dele, se sentindo um pouco como se estivesse em um dos filmes de James Bond do pai de Henry. Atrás dele, um atendente descarrega sua bagagem e a leva na direção de um Aston Martin reluzente.

— É um prazer, Shaan. Não é exatamente como gostaríamos de estar passando nosso fim de semana, não é?

— Não estou tão surpreso com essa série de eventos quanto gostaria, senhor — Shaan diz tranquilamente, com um sorriso indecifrável.

Ele tira um pequeno tablet do paletó e dá meia-volta em direção ao carro que os aguarda. Alex fica olhando, sem dizer uma palavra, antes de se recusar categoricamente a ficar impressionado com um homem adulto cujo trabalho é cuidar da agenda do príncipe, por mais elegante que ele seja e por mais longos e tranquilos que sejam seus passos. Ele abana a cabeça de leve e corre um pouco para alcançá-lo, entrando no banco de trás enquanto Shaan ajeita os retrovisores.

— Certo — Shaan diz. — O senhor vai ficar nos aposentos de hóspedes do Palácio de Kensington. Amanhã, vai dar entrevista ao This Morning às nove… agendamos uma sessão de fotos no estúdio. A tarde toda é das crianças com câncer e depois o senhor pode voltar para a terra da liberdade.

— Está bem — Alex diz. Por educação, ele não acrescenta: poderia ser pior.

— Agora — Shaan diz —, o senhor virá comigo para buscar o príncipe no estábulo. Um dos nossos fotógrafos estará presente para fazer registros do príncipe recebendo o senhor ao país, então tente parecer feliz por estar lá.

Claro, existem estábulos dos quais o príncipe precisa ser levado de chofer. Por um momento, ele achou que havia se enganado sobre como seria o fim de semana, mas agora parece mais o que ele havia imaginado.

— Se o senhor olhar no bolso do banco à sua frente — Shaan diz enquanto dá a ré —, tem alguns documentos que precisam ser assinados. Seus advogados já os aprovaram. — Ele passa para trás uma caneta-tinteiro preta de aparência cara.

TERMO DE CONFIDENCIALIDADE, diz o título da primeira página. Alex folheia até a última — são pelo menos quinze — e um assobio baixo escapa de seus lábios.

— Vocês… — Alex diz — fazem isso sempre?

— Protocolo padrão — Shaan responde. — A reputação da família real é valiosa demais para correr algum risco.

As chamadas “Informações Confidenciais”, conforme utilizadas no presente Termo, incluem:

1. Informações que Sua alteza real, o príncipe Henry, ou qualquer membro da Família Real designe ao Hóspede como “Informações Confidenciais”;

2. Todas as informações relativas aos bens e patrimônios de sua alteza real, o príncipe Henry;

3. Quaisquer detalhes arquitetônicos interiores das Residências Reais, incluindo o Palácio de Buckingham, o Palácio de Kensington etc., e objetos pessoais nelas encontrados;

4. Quaisquer informações sobre ou envolvendo a vida pessoal ou particular de sua alteza real, o príncipe Henry, que não tenha sido divulgada previamente por documentos reais oficiais, discursos ou biógrafos aprovados, incluindo qualquer relação pessoal ou particular que o Hóspede possa ter com sua alteza real, o príncipe Henry;

5. Quaisquer informações encontradas nos aparelhos eletrônicos pessoais de sua alteza real, o príncipe Henry…



Isso parece… demais, como o tipo de papelada que se receberia de um milionário perverso que quer caçar uma pessoa por esporte. Ele se pergunta o que uma figura pública tão entediante e perfeitinha teria a esconder. Tomara que não seja caçar pessoas.

Mas termos de confidencialidade não são nenhuma novidade para Alex, então ele o assina e rubrica. Afinal, não divulgaria todos os detalhes monótonos de sua viagem para ninguém, exceto talvez para June e Nora.

Eles estacionam na frente do estábulo depois de quinze minutos, sua equipe de segurança logo atrás. O estábulo real é, obviamente, elaborado, bem cuidado e completamente diferente dos ranchos velhos que ele via no norte do Texas. Shaan guia o caminho até a beira do pasto, enquanto Amy e sua equipe se reagrupam dez passos atrás.

Alex apoia os cotovelos nas tábuas da cerca branca envernizada, lutando contra a sensação súbita e absurda de que está malvestido para a ocasião. Em qualquer outro dia, sua calça chino e sua camisa seriam perfeitas para uma sessão de fotos casual, mas, pela primeira vez em muito tempo, ele está se sentindo completamente fora de seu habitat. Será que seu cabelo está horrível por causa do voo?

Claro, Henry não vai estar com uma aparência muito melhor depois de um treino de polo. Ele deve estar todo suado e repugnante.

Como se ouvisse aquele pensamento, Henry vira a curva galopando no dorso de um cavalo branco impecável.

Ele não está nem um pouco suado, muito menos repugnante. Em vez disso, surge banhado dramaticamente pela luz arrebatadora e resplandecente do pôr do sol, usando uma jaqueta preta e calças de montaria enfiadas nas botas altas de couro, como um verdadeiro príncipe de contos de fadas. Ele desengancha o capacete e o tira com a mão enluvada, e o cabelo está perfeitamente desgrenhado, de maneira a parecer proposital.

— Eu vou vomitar em você — Alex diz assim que Henry se aproxima o bastante para ouvi-lo.

— Oi, Alex — Henry diz. Alex realmente se ressente pelos centímetros mais altos de Henry. — Você parece… sóbrio.

— Apenas para você, vossa alteza real — ele diz com uma reverência sarcástica. Ele fica contente em ouvir certo tom de frieza na voz de Henry, que finalmente parou de atuar.

— Muito gentil da sua parte — Henry diz. Ele passa a perna comprida por sobre o cavalo e desmonta com elegância, tirando a luva e estendendo a mão para Alex. Um cavalariço bem-vestido surge do nada para levar o cavalo embora, puxando-o pelas rédeas. Alex nunca deve ter odiado nada mais do que odeia esse momento.

— Que idiotice — Alex diz, apertando a mão de Henry. Sua pele é macia, provavelmente esfoliada e hidratada todos os dias por alguma manicure da realeza. Há um fotógrafo real logo do outro lado da cerca, então ele abre um sorriso vitorioso e diz entredentes. — Vamos acabar logo com isso.

— Preferia ser torturado — Henry diz, retribuindo o sorriso. A câmera tira algumas fotos. Seus olhos são grandes, suaves e azuis, e ele precisa desesperadamente levar um soco num deles. — Ouvi dizer que seu país é bom nisso.

Alex ergue a cabeça para trás e solta uma gargalhada elegante, alta e falsa.

— Vai se foder.

— Não tenho tempo — Henry diz. Ele solta a mão de Alex quando Shaan volta.

— Vossa alteza — Shaan cumprimenta Henry com a cabeça. Alex se concentra para não revirar os olhos. — O fotógrafo já deve ter o que precisa, então, se estiver pronto, o carro está à espera.

Henry se vira para ele e sorri de novo, os olhos impossíveis de interpretar.

— Vamos?


Há algo de vagamente familiar nos aposentos de hóspedes do Palácio de Kensington, embora Alex nunca tenha estado ali antes.

Shaan mandou um atendente levá-lo até seu quarto, onde sua bagagem esperava por ele em cima da cama de madeira entalhada e coberta com lençóis dourados. Muitos dos quartos na Casa Branca têm o mesmo ar assombrado, um peso histórico que pende feito teias de aranha, por mais impecáveis que os aposentos sejam mantidos. Ele está acostumado a dormir com fantasmas, mas não é esse o problema.

Aquele lugar o faz lembrar algo ainda mais antigo em sua memória, por volta da época em que seus pais se separaram. Eles eram o tipo de casal de advogados que mal conseguiam pedir delivery de comida chinesa sem fazer uma documentação jurídica, então Alex passou o verão antes do sétimo ano indo e voltando entre a casa da mãe e a casa nova do pai em Los Angeles até eles finalmente conseguirem firmar um acordo definitivo.

Era uma casa bonita no vale; tinha uma piscina azul cristalina e uma parede de vidro sólido nos fundos. Ele nunca conseguiu dormir bem lá. No meio da noite, saía escondido do quarto improvisado, roubando sorvete Helados do freezer do pai e tomando direto do pote, em pé e descalço na cozinha, sob a luz azul refletida da piscina.

De alguma forma, é assim que ele se sente aqui — acordado à meia-noite em um lugar estranho, obrigado a fazer isso funcionar.

Ele vai até a cozinha anexa à ala de hóspedes, onde o pé-direito é alto e os balcões são de mármore brilhante. Falaram para ele enviar uma lista para estocarem sua cozinha, mas, pelo visto, era difícil demais conseguir Helados em cima da hora — tudo que tem no freezer são sorvetes de casquinha de marcas britânicas.

— Como é aí? — diz a voz de Nora, metálica pelo celular. Na tela, ela está de cabelo preso, mexendo em uma das dezenas de plantas em sua janela.

— Esquisito — Alex diz, erguendo os óculos sobre o nariz. — Tudo parece um museu. Mas acho que não posso mostrar pra você.

— Aah — Nora diz, erguendo as sobrancelhas. — Que sigiloso. Que chique.

— Até parece — Alex diz. — Na verdade, é meio medonho. Tive que assinar um termo de confidencialidade tão gigante que tenho certeza que um alçapão vai abrir sob meus pés e vou acabar em uma masmorra de tortura a qualquer momento.

— Aposto que ele tem um filho bastardo secreto — Nora diz. — Ou é gay. Ou tem um filho bastardo secreto que é gay.

— Acho que é para o caso de eu ver o cavalariço trocar as pilhas dele — Alex diz. — Enfim, esse assunto é chato. E você? Sua vida está muito melhor do que a minha nesse momento.

— Bom — Nora diz —, o Nate Silver não para de me ligar pedindo outra coluna. Comprei umas cortinas novas. Reduzi a lista de pós-graduações para estatística ou ciência de dados.

— Me fala que as duas são na George Washington — Alex diz, pulando para se sentar em cima de um dos balcões limpíssimos, balançando os pés. — Você não pode me largar em Washington e voltar para Massachusetts.

— Ainda não decidi, mas, por incrível que pareça, não depende de você — Nora diz. — Lembra que às vezes a gente comenta que você não é o centro do mundo?

— Lembro, é esquisito. Então o plano é destronar o Nate Silver como czar dos dados de Washington?

Nora dá risada.

— Não, o que vou fazer é compilar e processar em segredo dados suficientes para saber exatamente o que vai acontecer nos próximos vinte e cinco anos. Então, vou comprar uma casa no topo de uma colina muito alta na beira da cidade, me tornar uma reclusa excêntrica e ficar sentada na varanda. Vou ver tudo se desenrolar com binóculos.

Alex começa a rir, mas para quando escuta um barulho no corredor. Passos discretos se aproximando. A princesa Beatrice mora em uma parte diferente do palácio, e Henry também. Mas tanto os seguranças da Família Real como os dele dormem neste andar, então talvez…

— Espera aí — Alex diz, cobrindo o celular.

Uma luz se acende no corredor, e a pessoa que entra a passos surdos na cozinha é ninguém menos do que o próprio príncipe Henry.

Ele está com a cara amassada e meio dormindo, os ombros curvados enquanto boceja. Ele está na frente de Alex usando não um terno, mas uma camiseta cinza e uma calça de pijama xadrez. Está com fones de ouvido, e seu cabelo está uma bagunça. Os pés estão descalços.

Ele parece surpreendentemente humano.

Ele fica paralisado quando seus olhos encontram Alex sentado no balcão. Alex o encara de volta. Na mão dele, Nora começa a dizer com a voz abafada:

— É o…

Alex encerra a ligação.

Henry tira os fones e volta a assumir uma postura ereta, mas seu rosto ainda está sonolento e confuso.

— Oi — ele diz, com a voz rouca. — Desculpa. É. Eu só ia. Cornettos.

Ele aponta vagamente na direção da geladeira, como se tivesse dito algo que fizesse algum sentido.

— Quê?

Ele vai até o freezer e tira a caixa de sorvetes, mostrando o nome Cornettos para Alex na embalagem.

— Os meus acabaram. Eu sabia que tinham estocado a sua geladeira.

— Você assalta a cozinha de todos os seus hóspedes? — Alex pergunta.

— Só quando não consigo dormir — Henry diz. — E nunca consigo. Não sabia que você estava acordado. — Ele olha para Alex, com expectativa, e Alex se dá conta de que ele está esperando permissão para abrir a caixa e pegar um. Alex pensa em dizer não, só pela emoção de negar algo a um príncipe, mas está meio intrigado. Ele também não consegue dormir normalmente. Faz que sim com a cabeça.

Ele espera que Henry pegue um Cornetto e saia, mas, em vez disso, o príncipe volta a erguer os olhos para Alex.

— Você treinou o que vai falar amanhã?

— Treinei — Alex diz, se eriçando imediatamente. É por isso que nada em Henry o havia intrigado antes. — Você não é o único profissional aqui.

— Eu não quis dizer… — Henry hesita. — Só quis saber se você acha que a gente deveria, tipo, ensaiar?

— Você precisa?

— Pensei que poderia ajudar. — É claro que ele pensou isso. Tudo que Henry já fez publicamente deve ter sido ensaiado em segredo em aposentos reais abafados como esse.

Alex salta do balcão, desbloqueando o celular.

— Saca só.

Ele tira uma foto: a caixa de Cornettos no balcão, a mão de Henry apoiada ao lado dela, seu anel de sinete pesado visível junto com uma parte do pijama. Ele abre o Instagram, passa um filtro.

— “Nada cura o cansaço da viagem” — Alex narra com a voz monótona enquanto digita a legenda — “melhor do que um sorvete noturno com o @PrinceHenry.” Localização: Palácio de Kensington, e postado. — Ele mostra o celular para Henry enquanto as curtidas e comentários começam a brotar imediatamente. — Tem muita coisa sobre a qual vale a pena pensar demais. Mas essa não é uma delas.

Henry franze a testa.

— Talvez — ele diz, em dúvida.

— Já acabou? — Alex pergunta. — Eu estava no celular.

Henry pestaneja, depois cruza os braços diante do peito, de volta à defensiva.

— Claro. Não quero atrapalhar.

Antes de sair da cozinha, ele pausa no batente, refletindo.

— Não sabia que você usava óculos — ele diz finalmente.

Ele deixa Alex sozinho na cozinha, a caixa de Cornettos condensando no balcão.


O trajeto até o estúdio onde vai ser a entrevista é turbulento, mas felizmente rápido. Alex provavelmente deveria saber que parte do seu mal-estar é nervosismo, mas prefere pensar que a culpa é do café da manhã terrível que tomou — que tipo de país idiota come feijão sem tempero com pão de forma de café da manhã? Ele não consegue decidir se é seu sangue mexicano ou texano que se sente mais ofendido.

Henry está sentado ao seu lado, cercado por uma multidão de empregados e stylists. Um ajeita seu cabelo com um pente fino. Outro segura um caderno com tópicos. Outro ajeita sua gola. Do banco de passageiros, Shaan tira um comprimido amarelo de um frasco e o passa para Henry, que o coloca na boca prontamente e o engole de uma vez. Alex decide que não quer nem precisa saber o que é.

O comboio para em frente ao estúdio e, quando a porta automática se abre, lá está a fila de fotógrafos prometida e a barricada de adoradores da realeza. Henry se vira e olha para ele, uma leve careta em torno da boca e dos olhos.

— O príncipe vai primeiro, depois você — Shaan diz a Alex, se aproximando e tocando no fone. Alex inspira uma, duas vezes, e abre o sorriso elétrico, o charme americano.

— Vá em frente, vossa alteza real — Alex diz, piscando enquanto coloca os óculos escuros. — Seus súditos o aguardam.

Henry pigarreia e levanta, saindo para o sol matinal e acenando amavelmente para a multidão. Câmeras disparam, fotógrafos gritam. Uma menina de olhos azuis na multidão ergue um cartaz em que está escrito em letras grandes e brilhantes PEGA EU, PRÍNCIPE HENRY! por cerca de cinco segundos até um membro da equipe de segurança jogar o cartaz numa lixeira próxima.

Alex sai em seguida, erguendo-se ao lado de Henry e colocando um braço em volta dos ombros dele.

— Finge que gosta de mim! — Alex diz, sorridente. Henry olha para ele como se estivesse tentando escolher entre um milhão de opções de palavras, antes de inclinar a cabeça para o lado e dar uma gargalhada ensaiada, colocando o braço em volta de Alex também. — Agora sim.

Os apresentadores do This Morning são tão britânicos que chega a dar agonia: uma mulher de meia-idade chamada Dottie de vestidinho claro e um homem chamado Stu com cara de quem passa os fins de semana gritando com camundongos no jardim de casa. Alex assiste às apresentações nos bastidores enquanto um maquiador esconde uma espinha de estresse em sua testa. Então, isso está acontecendo. Ele tenta ignorar Henry poucos metros à sua esquerda, recebendo uma arrumada final de um stylist da realeza. É a última chance do dia que ele tem de ignorá-lo.

Pouco depois, Henry sai do camarim, seguido por Alex, que aperta a mão de Dote primeiro, voltando seu Sorriso Político para ela, aquele que faz muitas deputadas e um número considerável de deputados quererem lhe dizer coisas que não deveriam. Ela ri baixo e dá um beijo na bochecha dele. A plateia bate palmas e mais palmas.

Henry senta no sofá do cenário ao lado dele, a postura perfeita, e Alex sorri para ele, fingindo parecer à vontade nessa companhia. É mais difícil do que deveria, porque, de repente, as luzes do palco deixam claro como Henry está bonito para as câmeras. Ele está usando um suéter azul sobre a camisa e seu cabelo parece sedoso.

Tá, tudo bem. Chega a ser irritante o quanto Henry é atraente. Isso sempre foi verdade, objetivamente falando. Não é um problema.

Ele percebe, quase um segundo tarde demais, que Dottie está fazendo uma pergunta para ele.

— O que você está achando da boa e velha Inglaterra, hein, Alex? — Dottie diz, visivelmente gracejando com ele. Alex força um sorriso.

— Sabe, Dottie, é maravilhoso — Alex diz. — Já estive aqui algumas vezes desde que minha mãe foi eleita, e é sempre incrível ver a história, além da seleção de cervejas. — A plateia gargalha em seguida, e Alex ri um pouco. — E, claro, é sempre bom encontrar esse cara.

Ele se vira para Henry, estendendo o punho. Henry hesita antes de bater o punho no de Alex, com o ar tenso de quem comete um ato de traição.


O motivo por que Alex quer entrar na política, mesmo sabendo que tantos filhos de presidentes anteriores fugiram correndo assim que fizeram dezoito anos, é que ele realmente se importa com o povo.

O poder é ótimo, a atenção é divertida, mas o povo… o povo é tudo. Ele tem um certo problema de se importar demais com todas as coisas, incluindo se as pessoas conseguem pagar suas despesas médicas, se casar com quem quer que amem, ou não levar um tiro na escola. Ou, nesse caso, se as crianças com câncer têm livros suficientes para ler no Royal Marsden NHS Foundation Trust.

Ele, Henry e a horda coletiva de seguranças dos dois tomaram conta do andar do hospital, atrapalhando as enfermeiras e apertando mãos. Ele está tentando — tentando para valer — não cerrar os punhos ao lado do corpo, mas Henry está abrindo seu sorriso robótico com um garotinho careca todo entubado para uma fotografia idiota, e sua vontade é gritar com todo esse maldito país.

Como ele é obrigado por contrato a estar aqui, se concentra nas crianças. A maioria não faz ideia de quem ele seja, mas Henry o apresenta alegremente como filho da presidenta, e não demora para estarem perguntando sobre a Casa Branca e se ele conhece a Ariana Grande, e ele ri e responde às perguntas. Alex tira livros das caixas pesadas que eles trouxeram, senta nas camas e lê em voz alta, seguido por um fotógrafo.

Ele só se dá conta de que perdeu Henry de vista quando o paciente para quem está lendo pega no sono, e ele reconhece o burburinho baixo da voz do príncipe do outro lado da cortina.

A poucos passos dali — nenhum fotógrafo. Apenas Henry. Hmm.

Em silêncio, ele passa por cima da cadeira encostada à parede no canto da cortina. Se ele sentar no ângulo certo e erguer a cabeça, consegue enxergar um pouco.

Henry está conversando com uma garotinha com leucemia chamada Claudette, segundo a prancha na parede. A pele negra da menina tem um tom acinzentado e ela usa um lenço laranja brilhante amarrado na cabeça, estampado com o Starbird da Aliança Rebelde.

Em vez de estar em pé e sem jeito como Alex imaginava ver, Henry está ajoelhado ao lado da garota, sorrindo e segurando sua mão.

— … fã de Star Wars, então? — Henry diz com uma voz baixa e afetuosa que Alex nunca tinha ouvido dele antes, enquanto aponta para o símbolo no lenço da menina.

— Eu amo! — Claudette diz efusivamente. — Quero ser que nem a princesa Leia quando crescer porque ela é muito forte, resistente e esperta. E além de tudo beija o Han Solo!

Ela cora um pouco por falar em beijo na frente do príncipe, mas é corajosa e mantém o contato visual. Alex se pega esticando mais o pescoço para ver a reação de Henry. Ele definitivamente não se lembra de Star Wars na ficha informativa.

— Quer saber — Henry diz, inclinando-se em tom conspiratório —, acho que você teve a ideia certa.

Claudette ri baixinho.

— Quem é o seu preferido?

— Hmm — Henry diz, fingindo pensar muito. — Sempre gostei do Luke. Ele é corajoso e bom, e é o jedi mais forte de todos. Acho que o Luke é prova de que não importa de onde você venha ou quem seja a sua família; você sempre pode ser incrível se for verdadeiro consigo mesmo.

— Certo, srta. Claudette — uma enfermeira diz alegremente enquanto abre a cortina. Henry levanta de um salto, e Alex quase cai da cadeira, pego no flagra. Ele limpa a garganta ao ficar de pé, se esforçando para não olhar para Henry. — Vocês dois podem ir, está na hora dos remédios dela.

— Dona Beth, o Henry falou que somos amigos agora! — Claudette praticamente choraminga. — Ele pode ficar!

— Ei, mocinha! — Beth, a enfermeira, a repreende. — Isso não é jeito de se dirigir ao príncipe. Sinto muito, vossa alteza.

— Não tem por que se desculpar — Henry diz. — Comandantes rebeldes são mais importantes do que a realeza. — Ele dá uma piscadinha e bate continência para Claudette, e ela se derrete toda.

— Estou impressionado — Alex diz enquanto eles saem juntos para o corredor. Henry ergue uma sobrancelha, e Alex acrescenta: — Não impressionado, só surpreso.

— Com o quê?

— Que você tem, sabe, sentimentos.

Henry está começando a sorrir quando três coisas acontecem em rápida sucessão.

A primeira: um grito ecoa na ponta oposta do corredor.

A segunda: há um estouro alto que assustadoramente parece um tiro.

A terceira: Cash pega Henry e Alex pelos braços e os empurra pela porta mais próxima.

— Abaixem-se — Cash grunhe enquanto fecha a porta atrás deles.

Na escuridão abrupta, Alex tropeça em um esfregão e na perna de Henry, e os dois caem juntos numa pilha ruidosa de penicos de metal. Henry cai primeiro, de cara no chão, e Alex para em cima dele.

— Ai, meu Deus — Henry diz, com a voz abafada e ecoando um pouco. Alex meio que torce para que o rosto dele esteja enfiado num penico.

— Sabe — ele diz com a cara no cabelo de Henry —, a gente tem que parar de cair desse jeito.

— Dá licença?

— Isso é culpa sua!

— Como isso poderia ser culpa minha? — Henry sussurra, furioso.

— Ninguém nunca tenta atirar em mim quando estou fazendo aparições presidenciais, mas no minuto que saio com a porra de um membro da realeza…

— Dá para calar a boca para não nos matarem?

— Ninguém vai matar a gente. Cash está bloqueando a porta. Além disso, não deve ser nada.

— Então pelo menos sai de cima de mim.

— Para de mandar em mim! Você não é meu príncipe!

— Saco — Henry murmura.

Ele empurra o chão com força e rola para o lado, derrubando Alex, que acaba entre o corpo de Henry e uma estante de produtos de limpeza com cheiro forte.

— Dá para sair daí, vossa alteza? — Alex sussurra, batendo o ombro no de Henry. — Prefiro não ficar na parte de dentro da conchinha.

— Acredite em mim, estou tentando — Henry responde. — Não tem espaço.

Do lado de fora, há vozes, passos apressados — nenhum sinal de que está liberado.

— Bom — Alex diz. — Acho que é melhor tentar ficar confortável.

Henry expira, tenso.

— Que fantástico.

Alex o sente se mexendo ao lado dele, os braços cruzados diante do peito em sua postura reservada típica enquanto continua deitado no chão com o pé dentro de um balde de esfregão.

— Que fique claro — Henry diz — que também nunca sofri um atentado antes.

— Bom, parabéns — Alex diz. — Você finalmente conseguiu.

— Sim, é exatamente como sonhei que seria. Trancado em um armário com seu cotovelo enfiado na minha caixa torácica — Henry alfineta. Ele fala como se quisesse dar um soco na cara de Alex, e Alex nunca deve ter gostado tanto dele quanto agora, então obedece a um impulso e enfia o cotovelo na barriga de Henry com força.

Henry solta um grito agudo e abafado e, quando Alex se dá conta, foi puxado de lado pela camisa e Henry está meio em cima dele, o imobilizando com a coxa. Sua cabeça lateja no ponto onde bateu contra o piso de linóleo, mas ele consegue sentir seus lábios se abrirem em um sorriso.

— Então você sabe brigar — Alex diz. Ele ergue os quadris, tentando se livrar de Henry, mas ele é mais alto e mais forte e está segurando Alex pela gola.

— Já acabou? — Henry diz, com a voz esganiçada. — Será que dá pra parar de colocar sua vidinha miserável em perigo?

— Ah, que gracinha, você se importa comigo — Alex diz. — Estou aprendendo todas as suas profundezas escondidas hoje, querido.

Henry expira e se afunda para longe dele.

— Não acredito que nem o perigo mortal faz você parar de ser assim.

A parte mais estranha, Alex pensa, é que o que ele disse é verdade.

Ele está tendo esses pequenos vislumbres de coisas que nunca pensou que Henry fosse. Um tanto briguento, por exemplo. Inteligente, interessado nos outros. É sinceramente desconcertante. Ele sabe exatamente o que dizer a cada senador democrata para fazê-los desatar a falar sobre projetos de lei, exatamente quando o chiclete de nicotina de Zahra está acabando, exatamente qual olhar lançar a Nora para disparar as fofocas sobre eles. Decifrar as pessoas é o que ele faz.

Ele não gosta nem um pouco que um filhote endógamo da realeza bagunce seu sistema. Mas realmente curtiu essa briga.

Ele fica deitado, esperando. Escuta os passos rápidos do outro lado da porta. Deixa os minutos passarem.

— Então, hm — ele arrisca. — Star Wars?

Sua intenção é falar de um jeito inofensivo, descontraído, mas a força do hábito vence e sai como uma ofensa.

— Sim, Alex — Henry diz, na defensiva —, acredite ou não, as crianças da coroa não passam a infância frequentando chás.

— Pensei que fosse mais treinamento de etiqueta e liga de polo infantil.

Henry faz uma pausa profundamente descontente.

— Isso… talvez faça parte também.

— Então você curte cultura pop, mas finge que não — Alex diz. — Ou você não pode falar sobre isso porque não convém para a coroa, ou prefere não falar porque quer que as pessoas pensem que você é culto. Qual é?

— Você está me psicanalisando? — Henry pergunta. — Acho que hóspedes da realeza não podem fazer isso.

— Estou tentando entender por que você se dedica tanto a fingir que é algo que não é, sendo que acabou de falar para aquela menininha que grandeza significa ser verdadeiro consigo mesmo.

— Não sei do que você está falando e, se eu soubesse, não seria da sua conta — Henry diz, a voz ficando tensa.

— Sério mesmo? Porque tenho quase certeza que sou obrigado por um contrato a fingir que sou seu melhor amigo, e não sei se você já pensou direito nisso, mas isso não vai parar depois desse fim de semana — Alex diz. Henry aperta ainda mais o próprio antebraço. — Se fizermos isso e nunca mais nos vermos, as pessoas vão saber que é mentira. Estamos presos um ao outro, goste você ou não, então tenho o direito de saber qual é o seu lance antes que me pegue de surpresa.

— Por que não começamos… — Henry diz, virando a cabeça para olhar para ele. Tão de perto, Alex só consegue distinguir a silhueta do nariz forte e majestoso de Henry — … com você me contando por que me odeia tanto?

— Quer mesmo ter essa conversa?

— Talvez eu queira.

Alex cruza os braços, percebe que é um reflexo do tique de Henry, e os descruza.

— Você realmente não lembra de ter sido um babaca comigo na Olimpíada?

Alex lembra em vívidos detalhes: ele com dezoito anos, mandado ao Rio com June, Nora e a delegação da campanha aos jogos, um fim de semana de sessões fotográficas vendendo a imagem de “próxima geração da cooperação global”. Alex passou a maior parte da viagem tomando caipirinhas e, em seguida, vomitando caipirinhas atrás de estádios olímpicos. Ele lembra até da bandeira britânica na jaqueta esportiva de Henry na primeira vez em que se conheceram.

Henry suspira.

— Foi a vez em que você ameaçou me jogar no Tâmisa?

— Não — Alex diz. — Foi a vez em que você foi um babaca condescendente nas finais de mergulho. Não lembra?

— Não.

Alex olha feio.

— Fui até você para me apresentar, e você me encarou como se eu fosse a coisa mais ofensiva que já tinha visto. Logo depois de apertar minha mão, você virou para Shaan e disse: “Pode se livrar dele?”.

Uma pausa.

— Ah — Henry diz. Ele limpa a garganta. — Não sabia que você tinha me ouvido.

— Acho que você não entendeu que o problema — Alex diz — é você ter dito aquela babaquice.

— Faz… sentido.

— Pois é.

— Só isso? — Henry pergunta. — Só a Olimpíada?

— Assim, esse foi o começo.

Henry pausa de novo.

— Estou sentindo reticências.

— É só que… — Alex diz e, sentado no chão de um almoxarifado, esperando uma ameaça de segurança passar ao lado do príncipe da Inglaterra depois de um fim de semana que pareceu um tipo de pesadelo contínuo muito específico, se censurar dá muito trabalho. — Sei lá. Fazer o que nós fazemos é difícil pra caralho. Mas é mais difícil para mim. Sou o filho da primeira presidenta mulher dos Estados Unidos. E não sou branco como ela, nem posso passar por branco. As pessoas sempre pegam mais pesado comigo. Já você é, sabe, você, e nasceu no meio disso tudo, e todos veem você como a porra do Príncipe Encantado. Você é basicamente um lembrete vivo de que sempre vou ser comparado com outra pessoa, não importa o que eu faça, mesmo se eu me esforçar duas vezes mais.

Henry fica em silêncio por um bom tempo.

— Olha — Henry fala finalmente. — Não posso fazer muito em relação ao resto. Mas posso dizer que, sim, fui mesmo um babaca naquele dia. Não que isso justifique, mas meu pai tinha morrido catorze meses antes, e eu ainda era meio babaca cem por cento do tempo na época. Desculpe.

Henry contrai uma mão ao lado do corpo, e Alex fica em silêncio por um momento.

A ala de câncer. Claro, Henry escolheu uma ala de câncer — estava lá na ficha informativa. Pai: famoso astro do cinema Arthur Fox, falecido em 2015, câncer pancreático. O velório foi transmitido pela televisão. Ele repensa as últimas vinte e quatro horas: a insônia, os comprimidos, a leve careta tensa que Henry faz em público que Alex sempre interpreta como indiferença.

Ele entende algumas coisas sobre esse assunto. O divórcio dos seus pais não foi um período agradável, e não é por prazer que ele se mata para ter notas altas. Faz muito tempo que ele sabe que a maioria das pessoas não pensa se algum dia vão ser boas o bastante ou se estão decepcionando o mundo inteiro. Ele nunca considerou que Henry pudesse sentir as mesmas coisas.

Henry limpa a garganta de novo, e algo como pânico toma conta de Alex. Ele abre a boca e diz:

— Bom saber que você não é perfeito.

Ele quase consegue sentir Henry revirar os olhos, e fica grato por isso, o conforto familiar da rivalidade.

Eles ficam em silêncio de novo, a poeira da conversa baixando. Alex não consegue ouvir nada de trás da porta nem nenhuma sirene na rua, mas ninguém veio buscá-los ainda.

Então, do nada, Henry diz no silêncio estendido:

— O retorno de jedi.

Um segundo.

— Quê?

— Respondendo à sua pergunta — Henry diz. — Sim, eu gosto de Star Wars, e meu preferido é O retorno de jedi.

— Ah — Alex diz. — Nossa, como você está errado.

Henry solta uma bufada elegante de indignação. Cheira a menta. Alex resiste ao impulso de dar outra cotovelada nele.

— Como posso estar errado sobre meu filme preferido? É uma verdade pessoal.

— É uma verdade pessoal errada e ruim.

— Qual você prefere, então? Por favor, me mostre onde estou enganado.

— Tá, Império.

Henry funga.

— Mas que sombrio.

— Isso é o que o torna bom — Alex diz. — É o mais complexo tematicamente. Tem o beijo do Han e da Leia, a gente conhece o Yoda, Han está no seu ápice, tem a porra do Lando Calrissian, e a melhor reviravolta na história do cinema. O que o Jedi tem? A porra dos ewoks.

— Os ewoks são icônicos.

— Os ewoks são idiotas.

— Mas Endor.

— Mas Hoth. Existe um motivo para todo mundo chamar a melhor e mais corajosa parte de uma trilogia de Império da série.

— Eu entendo. Mas não devemos dar valor a um final feliz?

— Falou o Príncipe Encantado.

— Só dizendo, eu gosto da resolução de Jedi. Amarra tudo perfeitamente. E o tema geral que você leva dos filmes é esperança, amor e… tipo, sabe, tudo mais. É por isso que Jedi deixa a gente com uma sensação de algo maior.

Henry tosse, e Alex está virando para olhar para ele de novo quando a porta se abre e a silhueta de Cash ressurge.

— Alarme falso — ele diz, arfando. — Uns moleques idiotas trouxeram fogos de artifício para um amigo. — Ele baixa os olhos para os dois, deitados de costas e piscando contra a luz súbita e forte do corredor. — Parece aconchegante aqui.

— Pois é, estamos ficando íntimos — Alex diz. Ele estende uma mão para Cash ajudá-lo a levantar.


Fora do Palácio de Kensington, Alex tira o celular de Henry da mão dele e abre uma página para rapidamente criar um contato novo, antes que ele possa reclamar ou mandar um segurança para cima dele por violar uma propriedade real. O carro está esperando para levá-lo de volta à pista particular da realeza.

— Toma — Alex diz. — É o meu número. Se formos manter isso, vai ficar irritante continuar passando pelos assessores. Só me manda uma mensagem. Vamos dar um jeito.

Henry fica olhando para ele, a expressão vagamente perplexa, e Alex se pergunta como esse cara tem amigos.

— Certo — Henry acaba dizendo. — Obrigado.

— Mas não troco nudes — Alex diz, e Henry solta uma gargalhada.





Três


O AMERICANO QUE ME AMAVA: Henry e Alex exibem amizade

ALERTA: BROMANCE NOVO NO AR? Fotos do primeiro-filho

com o príncipe Henry

FOTOS: Fim de semana de Alex em Londres



Pela primeira vez em uma semana, Alex não está irritado ao navegar por seus alertas do Google. Eles terem dado uma exclusiva à People — algumas frases genéricas sobre como Alex “estima” sua amizade com Henry e suas “experiências em comum” como filhos de líderes mundiais — fez muita diferença. Embora Alex ache que essa experiência em comum deve ser a vontade de jogar essa frase no oceano entre eles e vê-la afundar.

Pelo menos sua mãe não tem mais vontade de encenar a morte dele e ele parou de receber mil tweets virulentos por hora, o que já é uma vitória.

Ele desvia de uma caloura fascinada que o encara com os olhos arregalados e sai do corredor para o lado leste do campus, tomando o último gole de seu café frio. A primeira aula de hoje foi uma eletiva que ele está fazendo por um misto de fascínio mórbido e curiosidade acadêmica: Imprensa e Presidência. Alex ainda está com um cansaço infernal por tentar impedir que a imprensa destruísse a presidência, e essa ironia não passou despercebida por ele. A aula de hoje foi sobre os escândalos sexuais da história, e ele manda mensagem para Nora: quais as chances de um de nós se envolver em um escândalo sexual antes do fim do segundo mandato?

A resposta dela vem em segundos: 94% de probabilidade do seu pau virar uma personalidade recorrente no noticiário. aliás, viu isso?

Tem um link anexado: uma postagem de blog cheia de imagens e GIFs animados dele e de Henry no This Morning. O toque com os punhos. Sorrisos trocados que parecem sinceros. Olhares conspiratórios. Embaixo, centenas de comentários sobre como eles são bonitos, como ficam bem juntos.

pqp, diz um dos comentários, se peguem de uma vez, vai.

Alex ri tanto que quase tropeça num chafariz.


Como sempre, a guarda diurna no Dirksen Building olha feio para Alex quando ele passa pelos seguranças. Ela tem certeza que foi ele quem vandalizou a placa do gabinete de um senador em particular para que ficasse MITCH MCCUZÃO, mas nunca vai ter como provar.

Cash acompanha Alex em algumas das missões de reconhecimento no Senado, então ninguém entra em pânico quando ele desaparece por algumas horas. Hoje, Cash se recosta em um banco para ouvir alguns podcasts. Ele sempre foi o mais permissivo em relação às travessuras de Alex.

Alex sabe de cor a planta do prédio desde que seu pai se elegeu ao Senado pela primeira vez. Foi onde ele aprendeu seu conhecimento enciclopédico sobre políticas e procedimentos, e onde passa mais tardes do que deveria, paquerando assistentes e descobrindo fofocas. Sua mãe finge se irritar, mas sempre pergunta o que ele está sabendo de novo, como quem não quer nada.

Como o senador Oscar Diaz está dando um discurso a favor do controle de armas na Califórnia, Alex aperta o botão do quinto andar em vez do andar do pai.

Seu senador preferido é Rafael Luna, um independente do Colorado e o mais jovem do Senado, com apenas trinta e nove anos. O pai de Alex o apadrinhou quando ele era apenas um procurador talentoso, e agora ele é o queridinho da política nacional por (A) vencer uma eleição especial e uma geral para senador com uma virada surpreendente e (B) dominar a lista de 50 Mais Bonitos da The Hill.

Alex passou o verão de 2018 em Denver na campanha de Luna, então eles têm sua própria relação disfuncional desenvolvida à base de Skittles de sabores tropicais comprados em postos de gasolina e noites em claro esboçando comunicados de imprensa. Às vezes ele ainda sente o fantasma da tendinite voltar, uma leve dor de estimação.

Alex encontra Luna em sua sala, usando óculos de leitura de aro de chifre que não prejudicam em nada sua aparência habitual de astro de cinema que tropeçou e acabou caindo na política. Alex sempre suspeitou que os olhos castanhos penetrantes e a barba rala perfeitamente aparada, assim como as maçãs do rosto esculpidas, conquistaram os votos que Luna poderia ter perdido por ser latino e assumidamente gay.

O álbum tocando baixo na sala é um dos preferidos dos tempos em Denver: Muddy Waters. Quando Luna ergue os olhos e vê Alex no batente, ele derruba a caneta em uma pilha bagunçada de papéis e se recosta na cadeira.

— Que porra você está fazendo aqui, moleque? — ele diz, observando-o feito um gato desconfiado.

Alex enfia a mão no bolso e tira um pacote de Skittles, e o rosto de Luna se abre em um sorriso na mesma hora.

— Bom garoto — ele diz, pegando o saquinho assim que Alex o joga no mata-borrão. Ele chuta a cadeira à frente da mesa para ele sentar.

Alex se senta, observando Luna rasgar o pacote com os dentes.

— Está trabalhando no quê?

— Você já sabe mais do que deveria sobre tudo que está nessa mesa. — E Alex realmente sabe: a mesma reforma da saúde do ano passado, a que está parada desde que eles perderam o Senado nas eleições de meio mandato. — Por que está aqui mesmo?

— Hmm. — Alex ergue uma perna sobre o braço da cadeira. — Não posso visitar um amigo querido da família sem segundas intenções?

— Sacana.

Ele aperta a mão no peito.

— Você me magoa.

— Você me cansa.

— Eu te encanto.

— Vou chamar os seguranças.

— Justo.

— Na verdade, queria falar da sua viagenzinha para a Europa — Luna diz. — Ele fixa o olhar astuto em Alex. — Posso esperar um presente seu e do príncipe no Natal desse ano?

— Bom — Alex desvia do assunto —, já que estou aqui, tenho uma pergunta pra você.

Luna ri, se recostando e entrelaçando as mãos atrás da cabeça. Alex sente o rosto ficar quente por meio segundo, uma onda de adrenalina contente que significa que ele está chegando a algum lugar.

— É claro que tem.

— Queria saber se você ouviu alguma coisa sobre Connor — Alex pergunta. — Seria muito bom ter o apoio de outro senador independente. Você acha que ele está perto de fazer alguma declaração?

Ele balança o pé inocentemente sobre o braço da cadeira, como se estivesse fazendo uma pergunta inofensiva sobre o clima. Stanley Connor, o velho independente excêntrico e adorado de Delaware com uma equipe de comunicação repleta de jovens, seria de grande ajuda na disputa acirrada mais à frente, e os dois sabem disso.

Luna chupa um Skittle.

— Você está perguntando se ele está perto de declarar apoio ou se eu sei quais palitinhos mexer para fazer com que ele declare?

— Raf. Amigo. Parceiro. Você sabe que eu nunca perguntaria algo tão indecoroso.

Luna suspira, gira na cadeira.

— Nunca se sabe com ele. Questões sociais normalmente o impulsionariam para o lado de vocês, mas você sabe o que ele pensa da plataforma econômica da sua mãe. Você deve saber do histórico de votação dele melhor do que eu, moleque. Ele não se encaixa em nenhum dos lados. Talvez prefira algo radicalmente diferente em relação a impostos.

— E você sabe de alguma coisa que eu não sei?

Ele sorri.

— Sei que Richards está prometendo aos independentes uma plataforma centrista com grandes mudanças em questões não sociais. E sei que parte dessa plataforma dele talvez não se alinhe à posição de Connor em relação à saúde. Talvez seja um bom lugar para começar. Hipoteticamente, se eu fizesse parte das suas maquinações.

— E você acha que não vale a pena procurar pistas sobre candidatos republicanos além do Richards?

— Porra — Luna diz, seu sorriso se fechando. — Quais são as chances da sua mãe enfrentar um candidato que não seja a bosta do messias ungido do populismo de direita, herdeiro do legado da família Richards? Improváveis pra cacete, eu diria.

Alex sorri.

— Você me completa, Raf.

Luna revira os olhos.

— Vamos voltar para você — ele diz. — Não pense que não notei você mudando de assunto. Quero deixar claro que ganhei o bolão do gabinete sobre o tempo que levaria para você causar um incidente internacional.

— Nossa, pensei que você fosse de confiança. — Alex exclama, fingindo se sentir traído.

— Qual é a história?

— Não tem história — Alex diz. — Henry é… uma pessoa que eu conheço. E fizemos uma coisa idiota. Tive que consertar. Nada de mais.

— Tá, tá — Luna diz, erguendo as duas mãos. — Ele é um gato, hein?

Alex faz uma careta.

— É, assim, se você curte, tipo, príncipes de faz de conta.

— E quem não curte?

— Eu não — Alex diz.

Luna arqueia uma sobrancelha.

— Tá bom.

— Que foi?

— Só me lembrando do verão passado — ele diz. — Tenho uma lembrança muito vívida de você fazendo basicamente um boneco de vodu desse príncipe na mesa.

— Eu não.

— Ou era um alvo de dardos com o rosto dele?

Alex volta a passar a perna por cima do braço da cadeira para deixar os dois pés no chão e cruzar os braços, indignado.

— Eu fiquei com uma revista com o rosto dele na minha mesa uma vez porque eu estava na revista e, por acaso, ele era a capa.

— Você ficou encarando a revista por uma hora.

— Mentira — Alex diz. — Calúnia.

— Parecia que estava tentando botar fogo nele com a força da sua mente.

— Aonde você quer chegar?

— Acho interessante — ele diz. — Como as coisas mudam rápido.

— Qual é — Alex diz. — É… política.

— Uhum.

Alex abana a cabeça, feito um cachorro, como se fosse dispersar o assunto da sala.

— Além disso, vim aqui para conversar com você sobre apoios, não sobre meus pesadelos vergonhosos de relações públicas.

— Ah — Luna diz, com sarcasmo —, mas pensei que você tinha vindo visitar um amigo da família.

— Claro. Foi o que eu quis dizer.

— Alex, você não tem nada melhor para fazer numa sexta à tarde? Você tem vinte e um anos. Devia estar enchendo a cara, se arrumando pra uma festa ou coisa do tipo.

— Eu faço todas essas coisas — ele mente. — Mas também faço isso.

— Ah, vá. Estou tentando te dar conselhos, de um homem velho para uma versão muito mais nova de si mesmo.

— Você tem trinta e nove anos.

— Meu fígado tem noventa e três.

— Isso não é culpa minha.

— Certas noitadas em Denver discordariam.

Alex ri.

— Viu, é por isso que somos amigos.

— Alex, você precisa de outros amigos — Luna diz. — Amigos que não estejam no Congresso.

— Eu tenho amigos! Tenho June e Nora.

— É, sua irmã e uma menina que é um supercomputador — Luna retruca. — Você precisa de um tempo para si mesmo antes que acabe ficando esgotado, moleque. Precisa de um grupo de apoio maior.

— Para de me chamar de moleque — Alex diz.

— Sim, senhor — Luna diz. — Já acabou? Tenho trabalho de verdade me esperando.

— Tá, tá — Alex diz, se levantando da cadeira. — Ei, Maxine está na cidade?

— Waters? — Luna pergunta, inclinando a cabeça. — Cacete, você está pedindo para morrer, hein?


Em termos de famílias políticas, a família Richards é uma das mais complexas da história que Alex já tentou desvendar.

Em um dos post-its colados no seu laptop, ele escreveu: FAMÍLIA KENNEDY + FAMÍLIA BUSH + PODERES SITH E DINHEIRO BIZARRO DA MÁFIA = FAMÍLIA RICHARDS? É basicamente a síntese do que ele descobriu até agora. Jeffrey Richards, teoricamente o único favorito atual para se opor à sua mãe na eleição geral, é senador de Utah há quase vinte anos, o que significa um longo histórico de votações e legislação que a equipe da sua mãe já analisou. Alex está mais interessado nas coisas mais difíceis de descobrir. São tantas gerações de procurador-geral Richards e juiz federal Richards que eles seriam capazes de acobertar qualquer coisa.

Seu celular vibra sob uma pilha de pastas na mesa. Uma mensagem de June: jantar? saudade de vc. Alex ama June — de verdade, mais do que tudo no mundo —, mas está muito concentrado agora. Vai responder quando se der pausa em meia hora.

Ele volta para o vídeo de uma entrevista de Richards, olhando o rosto do homem em busca de sinais não verbais. Cabelo grisalho — natural, não é uma peruca. Dentes brancos reluzentes, como os de um tubarão. Queixo forte de tio Sam. Ótimo vendedor, considerando que ele está mentindo descaradamente sobre uma lei no vídeo. Alex toma nota.

Uma hora e meia depois, outra mensagem o tira de um mergulho profundo nas declarações fiscais suspeitas que um tio de Richards apresentou em 1986. Sua mãe mandou um emoji de pizza no grupo da família. Ele marca a página e sobe a escada.

Jantares em família são raros, mas mais simples do que tudo que acontece na Casa Branca. Sua mãe manda alguém buscar pizzas, e eles comem no salão de jogos do terceiro andar com pratos descartáveis e cerveja Shiner trazida do Texas. É sempre divertido pegar um dos seguranças corpulentos falando em código pelos microfones: “Urso-Negro pediu mais pimentas-banana”.

June já está em uma espreguiçadeira tomando cerveja. Uma pontada de culpa o atinge na mesma hora quando ele se lembra da mensagem dela.

— Caralho, sou um babaca — ele diz.

— Uhum, é sim.

— Mas tecnicamente… estou jantando com você?

— Pega a minha pizza, vai — ela diz com um suspiro. Depois que o Serviço Secreto interpretou mal uma briga por azeitonas em 2017 e quase colocou a Residência em confinamento, cada um recebe sua própria pizza.

— Claro, Juju.

Ele encontra a de June, marguerita, e a sua, pepperoni com cogumelo.

— Oi, Alex — diz uma voz de algum lugar atrás da televisão enquanto ele senta para comer.

— Ei, Leo — ele responde. Seu padrasto está mexendo na fiação, provavelmente reconfigurando a parte elétrica da TV para fazer algo que se veria em um gibi do Homem de Ferro, como ele faz com a maioria dos eletroeletrônicos; hábitos de inventores milionários excêntricos custam a desaparecer. Alex está prestes a pedir uma explicação simplificada quando sua mãe entra feito um furacão.

— Por que vocês me deixaram concorrer à presidência? — ela diz, batendo com força demais no teclado de seu celular em golpes destacados. Ela tira os saltos no canto, jogando o celular junto deles.

— Porque todos sabemos que é melhor não tentar te impedir — a voz de Leo responde. Ele ergue a cabeça barbuda de óculos e acrescenta: — E porque o mundo cairia aos pedaços sem você, minha orquídea radiante.

A mãe de Alex revira os olhos, mas sorri. Sempre foi assim, desde que eles se conheceram em um evento de caridade quando Alex tinha catorze anos. Ela era presidenta da Câmara, e ele, um gênio com uma dezena de patentes e dinheiro para gastar com campanhas pela saúde das mulheres. Agora, ela é a presidenta, e ele vendeu as empresas para se tornar primeiro-cavalheiro em tempo integral.

Ellen abre uns cinco centímetros do zíper na parte de trás da saia, o sinal de que seu dia está oficialmente encerrado, e pega uma fatia de pizza.

— Certo — ela diz, e esfrega o rosto com a mão, tirando a cara de presidenta e voltando a assumir a de mãe. — Oi, filhotes.

— E aí — Alex e June murmuram em uníssono com a boca cheia.

Ellen suspira e olha para Leo.

— A culpa é minha, não é? Falta de educação. Parecem dois gambás. É por isso que dizem que as mulheres não podem ter tudo.

— Eles são obras-primas — Leo diz.

— Uma coisa boa, uma ruim — ela diz. — Vamos lá.

É o velho sistema que ela utiliza para saber do dia deles quando está muito ocupada. Alex cresceu com uma mãe que era um misto um tanto desconcertante de organização extrema e comprometimento a linhas abertas de comunicação emocional, feito uma coach superprotetora. Quando ele teve sua primeira namorada, Ellen fez uma apresentação no PowerPoint.

— Hmm. — June engole um pedaço. — Coisa boa. Ah! Ai, meu Deus. Ronan Farrow postou sobre meu artigo para a New York Magazine, e ficamos trocando piadas pelo Twitter. Parte do meu plano a longo prazo para obrigá-lo a virar meu amigo está a caminho.

— Não aja como se isso não fizesse parte de seu plano de longuíssimo prazo de assassinar Woody Allen e fazer parecer que foi um acidente — Alex diz.

— Ele é tão frágil, só precisaria de um empurrãozinho…

— Quantas vezes preciso dizer para não discutirem seus planos de assassinato na frente de uma presidenta em exercício? — a mãe deles interrompe. — Negação plausível. Poxa.

— Enfim — June diz. — Uma coisa ruim seria… bom, o Woody Allen ainda está vivo. Sua vez, Alex.

— Coisa boa — Alex diz. — Convenci um dos professores a concordar que uma pergunta na última prova era mal formulada, então vou receber nota máxima na minha resposta, que estava certa. — Ele dá um gole da cerveja. — Coisa ruim: mãe, vi o quadro novo no corredor do segundo andar, e preciso saber por que você permitiu uma pintura do terrier do George W. Bush na nossa casa.

— É um gesto bipartidário — Ellen diz. — As pessoas acham simpático.

— Tenho que passar por ele sempre que vou pro meu quarto — Alex reclama. — Aqueles olhinhos me seguem pra todo lado.

— Vai ficar.

Alex suspira.

— Tá.

Leo é o próximo — como de costume, sua coisa ruim é de certa forma boa também — e depois é a vez de Ellen.

— Bom, meu embaixador da ONU cagou na única missão dele e falou uma babaquice sobre Israel, e agora tenho que ligar para o Netanyahu e pedir desculpas. Mas a coisa boa é que agora são duas da manhã em Tel Aviv, então posso deixar isso para amanhã e jantar com vocês dois.

Alex sorri para ela. Às vezes ele ainda fica assombrado ao ouvi-la falar sobre suas dores de cabeça presidenciais, mesmo depois de três anos. Eles começam a conversar tranquilamente, trocam pequenas farpas e piadas internas e, por mais que essas noites sejam raras, elas são gostosas.

— Então — Ellen diz, começando a comer outra fatia pela borda. — Já contei para vocês que eu dava um golpe na sinuca no bar da minha mãe?

June fica paralisada, a cerveja a meio caminho da boca.

— Você fazia o quê?

— Pois é — ela diz. Alex troca um olhar incrédulo com June. — Minha mãe montou um bar fuleiro quando eu tinha uns dezesseis anos. A Gralha Bêbada. Ela me deixava ir depois da aula e fazer a lição de casa no balcão, mandava um segurança grandalhão impedir os velhos bêbados de dar em cima de mim. Fiquei muito boa na sinuca depois de alguns meses e comecei a apostar com os frequentadores que podia ganhar deles, mas me fazia de burra. Segurava o taco do jeito errado, fingia esquecer se eu era par ou ímpar. Perdia um jogo, depois apostava o dobro ou nada e recebia d